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Como Facebook e Google querem enterrar de vez o SMS

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SMS foi por muito tempo o principal meio de envio de mensagens de celulares, mas agora Google e Facebook querem acabar com eles de vez Imagem: Getty Images/iStockphoto

Helton Simões Gomes

Do UOL, em São Paulo

2019-05-05T04:00:00

05/05/2019 04h00

Você pode até não trocar tantos SMS como fazia antigamente e até achar que eles são coisa do passado. Mas tem empresa grande com planos ambiciosos para enterrar os torpedos de vez e substituí-los por suas próprias plataformas.

No páreo, estão Google e Facebook. A primeira possui um plano em marcha há pelo menos três anos e, nesse meio tempo, conseguiu como importantes aliadas as principais operadoras de telefonia do mundo. Já a rede social, porém, entrou nesta semana na disputa e trouxe consigo o WhatsApp, app preferido do brasileiro e usado globalmente por bilhões de pessoas.

Antes de continuar, é bom deixar claro: por SMS, não estamos falando daquelas mensagens de texto inconvenientes disparadas por empresas, que chegam com tanta frequência que mais parecem spam, e, sim, da própria plataforma do SMS.

Sai SMS, entra WhatsApp

A estratégia do Facebook foi mostrada no F8, conferência para desenvolvedores da empresa de Mark Zuckerberg. A empresa já fornece sistemas de login para diversos serviços online -- sabe o "entrar com Facebook"?.

Um deles permite que apps sejam acessados sem a necessidade de criar um cadastro. Basta informar um número de celular, receber um código e usá-lo com "senha". Você já deve ter visto sistemas similares por aí, só que eles muito provavelmente mandam os códigos por SMS. O que o Facebook quer é que esses envios sejam feitos para o seu WhatsApp, tanto para Android quanto para iOS.

Esse recurso até permite que os usuários escolham receber o código de acesso via ligação telefônica ou por notificação no Facebook. A intenção, no entanto, é convencer os usuários a trocar o SMS pelo WhatsApp.

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Se o SMS já não é tão popular como no passado, quando os planos de celular eram vendidos com base na quantidade de minutos para falar ao telefone e no número de torpedos, um dos culpados é justamente o WhatsApp. Ainda assim, o SMS ainda é um canal bastante usado por empresas para enviar avisos oficiais, promoções, confirmações de transações ou códigos de acesso.

Um ponto que pode desfavorecer o WhatsApp na briga contra o SMS é que o aplicativo funciona apenas com internet. Em locais com sinal de celular, mas com cobertura de internet móvel precária, como muitas regiões do Brasil, o serviço de bate-papo acaba em desvantagem.

Como o WhatsApp já é popular, o Facebook não precisa levar mais gente para lá. O que a rede social quer é transformar seus diversos apps nos pontos centrais da experiência das pessoas com seus produtos. Segundo Mark Zuckerberg, a ideia é daqui para frente dar maior ênfase a suas plataformas que priorizem interações privadas, como WhatsApp e Messenger, e focar em grupos e comunidades nos serviços que funcionam mais como "praças públicas", caso de Facebook e Instagram. Os planos de Zuckerberg, no entanto, não são inéditos, já que na China o WeChat é um app de bate-papo que integra diversas atividades, do envio de mensagens ao envio de dinheiro.

'SMS do futuro'

Já o plano do Google é diferente. A ideia não partiu da gigante das buscas, mas é ela quem colhe os frutos: a GSMA, uma associação de operadoras de telefonia, criou um protocolo de comunicação para ser o "SMS do futuro", mas pertence ao Google o principal sistema a usá-lo.

Chamado de Rich Communications Service (RCS), ele possui atributos que dão aos antigos torpedos uma carinha de WhatsApp. Ainda que use a infraestrutura das operadoras como o SMS, o RCS pode ser transmitido via todo tipo de conexão à internet. Isso permite que ele tenha uma interface interativa que mostra quando alguém está digitando e:

  • envie textos com mais de 160 caracteres;
  • mande mensagens de áudio e vídeo;
  • inclua arquivos, imagens e figurinhas (stickers);
  • crie de grupos de conversa;
  • conecte ao Wi-Fi -- o SMS usa apenas a conexão celular.

Para enviar mensagens de RCS, as operadoras têm de criar sua própria plataforma ou usar uma que já tenha sido feita por alguém. É aí que entra o Google, dono da Jibe, sistema que roda na nuvem para enviar e receber mensagens de RCS. Se você usa um celular Android, saiba que, apesar de não parecer, você já usa a tal Jibe sem saber: o aplicativo de mensagens nativo vem equipado com ela.

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Gigantes da telefonia de todo o mundo se uniram ao Google para emplacar o RCS. Entre elas estão a mexicana América Móvil, subsidiária da Claro no Brasil, e a italiana TIM, empresa-mãe da brasileira TIM.

Só que usar o RCS pela plataforma do Google tem sua peculiaridade: é possível enviar mensagens interativas apenas a outros smartphones Android.

No Brasil, a única operadora que aderiu ao RCS foi a Oi. Isso traz uma complicação adicional: além de as mensagens só poder serem trocadas entre celulares Android, ambos os aparelhos têm de usar linhas da Oi.

As demais companhias de celular analisam se adotam o sistema do Google ou se usam um próprio, mas já sinalizaram que devem lançar seus serviços de RCS ainda este ano. Isso poderá dar o impulso suficiente para que o substituto do SMS ganhe relevância no Brasil. Mas isso pode ser apenas o início de outra briga.

Ainda que tenha tantas vantagens sobre o SMS, o RCS deixa na mão quem estiver sem acesso à internet, o que acontece toda vez que o pacote de dados acaba.

Google x Facebook

Como o RCS permite diversas interações, as empresas podem acabar transformando as mensagens de celular em um serviço de atendimento ao consumidor simplificado. Uma empresa aérea, por exemplo, pode usá-lo para fazer check-in em voos, enquanto uma varejista online poderia registrar reclamações por meio dele. Se o RCS pegar, cairá no colo do Google um novo modelo de SAC.

Só que o Facebook conseguiu construir em torno do Messenger uma plataforma que abriga robôs criados para solucionar, ainda que de forma automática, tarefas a partir de conversas com clientes. A rede social também tenta fazer do WhatsApp Business, a versão corporativa do WhatsApp, como canal de contato entre clientes e empresas.

Ou seja, se forem bem-sucedidas em suas ações paralelas para tomar o espaço do SMS, as duas gigantes podem acabar abrindo uma nova linha de embate entre elas.