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Quer ver seu voto? Microsoft cria sistema para rechecar resultado eleitoral

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Voto depositado em urna; candidatos eleitos pelo povo são um dos princípios da democracia Imagem: Getty Images/iStockphoto

Helton Simões Gomes

Do UOL, em São Paulo

2019-05-06T12:30:00

06/05/2019 12h30

Você deve ter ouvido nas últimas eleições candidatos a cargos importantes duvidando, sem apresentar evidência alguma, da segurança de sistemas de votação. Ocorreu no Brasil, quando Jair Bolsonaro afirmou que, se não ganhasse, o pleito teria sido fraudado. E também ocorreu nos Estados Unidos, quando Donald Trump disse que, apesar de ele ter vencido, houve fraude porque ele não recebeu a maioria dos votos populares - por lá, a escolha é indireta.

Esse tipo de estratégia surfa em um ceticismo sobre o processo eleitoral que, ainda que infundado, ecoa entre os eleitores. Quer uma amostra? A única emenda constitucional aprovada por Bolsonaro em seus mais de 30 anos como deputado foi a que implantava o voto impresso, algo como um recibo da urna eletrônica. E, como a oportunidade é a alma do negócio, a Microsoft quer resolver a situação: lançou um sistema para recontar votos automaticamente.

O programa foi anunciado nesta segunda-feira (6) durante o Build, a conferência da dona do Windows para desenvolvedores. Chamado de Election Guard, ele será oferecido às empresas que fornecem as plataformas de votação.

O Election Guard é desenhado para ajudar a assegurar os sistemas de votação e aumentar a confiança nos desfechos das eleições ao fazer com que os resultados sejam publicamente verificados pelos votantes, campanhas, oficiais de eleição e o público em geral
Microsoft

A empresa de software não explica de que forma um eleitor poderia checar se o seu voto foi mesmo direcionado ao candidato escolhido. Mais estranho ainda, ela não informa nem qual será o modelo de negócio para quem quiser usar o software. Na verdade, a ideia da Microsoft é oferecê-lo a partir de meados de junho para qualquer um, de graça e por meio do Github, a plataforma mais usada por desenvolvedores para hospedarem seus códigos que foi comprada no ano passado.

O Election Guard, aliás, terá código aberto, ou seja, poderá ter suas linhas de programação inspecionadas por qualquer um que tenha alguma pulga atrás da orelha. Ele poderá ser integrado aos sistemas de votação, como uma função adicional, ou usado como peça central, para compilar todos os votos.

O programa para auditar eleições foi criado em parceria com o Galois, uma empresa de desenvolvimento de plataformas para atividades críticas para clientes como a Nasa e a Força Aérea dos EUA.

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Esta não é a única tentativa da Microsoft de tentar tampar algumas lacunas durante a corrida eleitoral. A empresa também quer resolver os problemas de cibersegurança de candidatos políticos. Também a partir de junho ela vai oferecer o Campaign Guard, uma atualização em sua suíte de produtividade corporativa, a 365 Business. A plataforma vai começar a oferecer recursos adicionais de seguranças aos políticos para que eles não caiam, por exemplo, em golpes de phishing - mensagens que simulam ser autênticas mas tem o objetivo de roubar dados ou infiltrar algum sistema.

Lançado a pouco mais de um ano das eleições presidenciais norte-americanas, não poderia chegar em momento mais oportuno, já que, no pleito passado, o Comitê Nacional do Partido Democrata foi hackeado, assim como a campanha de Hillary Clinton.

Essas duas iniciativas fazem parte do Programa para Defesa da Democracia, lançado pela Microsoft no ano passado para evitar incidentes cibernéticos em eleições e para levar mais transparência para os pleitos. Tanto o Election Guard quanto o Campaign Guard são, até agora, as ações mais incisivas desse programa.

Só há um problema. O Election Guard resolve um problema para o qual já há solução. Apesar de criticadas, as urnas eletrônicas do Brasil já possuem sistema para serem auditadas.

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Os votos são computados dentro de cada urna de maneira criptografada, ou seja, embaralhada. Assim, ninguém consegue identificar quem votou em quem.

As urnas não registram, no entanto, só o resultado final de cada voto, ou seja, o candidato que ganhou o voto, mas o que o eleitor digitou antes de confirmar. Exemplo: se uma pessoa digitou um número de candidato inexistente e confirmou, a urna guarda a informação de que o voto foi nulo e os números de fato inseridos pelo eleitor. Esses detalhes são armazenados em uma tabela com todos os votos digitados na urna.

A partir dessa tabela presente em cada urna, é possível recontar os votos. Às vésperas da eleição do ano passado, a presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Rosa Weber, reafirmou que, caso necessário, era plenamente possível auditar a eleição.

"Como já disse, reafirmei e volto a fazê-lo nessa oportunidade o nosso sistema eletrônico é auditável. Apresentadas as impugnações, nós temos como proceder a verificação dos nossos equipamentos para eventualmente apurar alguma falha ou se for o caso, que nunca ocorreu até hoje, alguma fraude"
Nas eleições de 2014, o candidato à presidência derrotado do PSDB, Aécio Neves, pediu recontagem dos votos, realizou uma auditoria independente na votação e concluiu que não houve fraude.

Talvez o alvo sejam localidades em que a votação seja ainda feita com cédulas de papel. Em algumas regiões dos EUA, por exemplo, a votação é feita em papel. Em 2000, o candidato democrata à presidência derrotado, Al Gore, pediu uma recontagem dos votos da Flórida. O processo até começou a ser feito, mas foi interrompido por uma decisão da Suprema Corte dos EUA, que deu a vitória a George W. Bush.