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Riqueza ou justiça? Oferta de ações e greve expõem corda bamba da Uber

Justin Sullivan/Getty Images/AFP
Motoristas de Uber e Lyft levantam cartazes em protesto na matriz do Uber, em San Francisco, Califórnia. "Uber, você está nos guiando para a pobreza", diz o cartaz Imagem: Justin Sullivan/Getty Images/AFP

Márcio Padrão

Do UOL, em São Paulo

2019-05-10T09:00:00

2019-05-11T13:15:19

10/05/2019 09h00Atualizada em 11/05/2019 13h15

Resumo da notícia

  • Empresa pode chegar a valor histórico na Bolsa de NY nesta sexta
  • Mas venda de ações mostra fragilidade de modelo de negócios da Uber
  • De um lado, motoristas insatisfeitos; de outro, instabilidade nos balanços
  • Concorrência acirrada força empresa a lançar descontos para manter clientes

A Uber finalmente lançou na quinta-feira (9) sua oferta pública de ações (IPO, na sigla em inglês) em Nova York (EUA), com a expectativa de ser a maior oferta da história. Na sua estreia na Bolsa, nesta sexta (10), o valor individual da ação foi determinado pela empresa em US$ 45, levando-a a um valor de mercado de US$ 82,5 bilhões, superando os US$ 25 bilhões do IPO da Alibaba em 2014.

Mas, apesar de a Uber ter revolucionado o transporte e a indústria de apps, sua venda de ações está também expondo a fragilidade de seu modelo de negócios.

A maior força de trabalho da Uber são, indiscutivelmente, os motoristas particulares, e foram eles os primeiros e maiores críticos do que devia ser o momento de glória da empresa. Armaram uma greve geral que ocorreu em várias cidades pelo mundo, inclusive nas brasileiras, para mostrar que estão bem insatisfeitos com a remuneração e as condições de trabalho.

O argumento deles é que uma empresa tão valorizada no mercado quanto a Uber deveria investir o dinheiro obtido na oferta pública de forma mais justa aos seus trabalhadores. Mas aí entra o ponto delicado...

Motoristas da Uber não são funcionários com carteira assinada e sindicalizados. Eles são uma força de trabalho autônoma e terceirizada, com a porcentagem do repasse de ganhos sempre determinada pela empresa. Também não ganham benefícios empregatícios clássicos, como férias, 13º salário e vale-transporte. A empresa sequer ajuda financeiramente na manutenção do carro.

Enquanto isso, estima-se que o fundador da Uber e dono de 8,6% das ações, o ex-executivo-chefe Travis Kalanick, ficou entre US$ 6,9 bilhões e US$ 7,8 bilhões mais rico --o valor de mercado que a empresa atingiu no seu IPO foi de cerca de US$ 80 bilhões.

Guerra comercial

Como muitas empresas de tecnologia que tiveram uma ascensão meteórica, a Uber ainda está aprendendo a ser lucrativa. A empresa teve perdas operacionais de US$ 3,04 bilhões no ano passado e receita de US$ 11,3 bilhões, elevando as perdas operacionais totais nos últimos três anos para mais de US$ 10 bilhões, segundo informações do seu último prospecto. Só no primeiro trimestre de 2019, seus prejuízos financeiros foram de pelo menos US$ 1 bilhão.

Isso porque a concorrência é cada vez mais pesada. No exterior, a americana Lyft e a chinesa Didi são grandes rivais. Aliás, a Lyft pode ter sido um fator de influência na redução de expectativas do mercado sobre a Uber. No ano passado dizia-se que a Uber poderia chegar em seu IPO um valor de mercado muito maior, de até US$ 120 bilhões. Mas os fracos resultados da Lyft após ter aberto seu capital em março podem ter desanimado investidores da Uber.

No Brasil, Cabify e a 99 --atualmente uma empresa da Didi-- também ameaçam. O que todos estão fazendo para roubar clientes uns dos outros? Com códigos de descontos aos passageiros. Por exemplo, a 99 tem dado cerca de 30% de desconto ao longo do dia, e a Uber, 20% de desconto.

A Uber já admitiu ter baixado as tarifas e os bônus para os motoristas para permanecer competitiva, e disse que deve continuar a fazer isso.

Kate Munsch/Reuters
Motoristas da Uber se manifestam próximo à sede da empresa em San Francisco, Califórnia, EUA, contra taxa salarial de 25% da empresa sobre o ganho dos motoristas Imagem: Kate Munsch/Reuters

Em paralelo, o desemprego crescente tem levado muitas pessoas com carros a tentar a vida de motorista de aplicativo. Segundo estimativa do IBGE, 200 mil motoristas entraram na Uber brasileira só neste ano, e a empresa já contava com 600 mil motoristas em 2018. Quanto mais carros nas ruas, mais difícil para cada motorista obter novas corridas.

Conversei com um amigo que é motorista da Uber há dois anos. Fizemos um cálculo aproximado de seus ganhos líquidos com o serviço. Em um mês movimentado, folgando dois dias por semana e trabalhando oito horas por dia, ele estimou um ganho bruto médio de R$ 240 (três corridas por hora x oito horas = 24 corridas, a cerca de R$ 10 cobrados ao cliente por corrida), ou R$ 5.280 em um mês.

Extrairemos disso uma taxa média de 20% por corrida para a Uber --essa taxa não é mais fixa, pois desde o ano passado varia por tempo e distância, mas costuma ser isso em muitas corridas. Depois a gasolina (uns R$ 90 diários). Assim saem R$ 1.056 e R$ 1.980 por mês (22 dias), respectivamente. Assim, sobrariam para ele uns R$ 2.244 mensais.

Mas como o volume de trabalho mensal costuma ser bem menor que este cenário, o valor médio já com a taxa da Uber descontada tem sido de R$ 150 diários, ou R$ 3.300 mensais (22 dias). Fora a gasolina (R$ 1.980), restam uns R$ 1.320 mensais. Isso fora despesas adicionais como seguro, lavagem e manutenção do veículo, e em alguns casos, parcelas de pagamento do carro.

Hoje em dia é muito difícil viver com R$ 1.320 mensais no Brasil. Há formas de compensar, trabalhando mais horas por dia, ou sacrificando folgas do mês.

Mas o ponto todo é que a Uber está no meio de um dilema: como agradar a todos?

Entenda "todos" como: acionistas que querem vê-la parar de perder dinheiro; clientes que gostam dos preços baixos das corridas e sempre estão dispostos a usar o app que dá mais desconto; e principalmente, motoristas que não aguentam mais ganhar tão pouco.

A conta não parece fechar. Achar esse equilíbrio é o primeiro passo para a empresa sobreviver a um cenário de corda bamba que ela mesma gerou.

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