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"A vida é uma adaptação", diz jovem com paralisia que escalou montanha

Divulgação
Getúlio Felipe aprendeu a andar aos sete anos e virou goleiro anos depois Imagem: Divulgação

Bruna Souza Cruz

Do UOL, em São Paulo

2019-05-13T04:00:00

13/05/2019 04h00

As últimas semanas do estudante Getúlio Felipe, 14 anos, foram intensas. Durante três dias, o jovem se aventurou na congelante cordilheira Dolomitas, no norte da Itália, e conseguiu o feito de alcançar o seu ponto mais alto.

A escalada se tornou um objetivo aos nove anos de idade, quando foi desafiado pelo brasileiro Pedro McCardell, montanhista criador do aplicativo Lyfx, uma espécie de "Uber de aventura" que conecta guias de várias regiões do mundo a viajantes. O objetivo da plataforma é criar roteiros personalizados e aproximar o usuário de experiências que um morador local tem normalmente na região.

Getúlio sofreu uma parada cardiorrespiratória ao nascer, que provocou uma paralisia cerebral. A escalada foi apenas uma das metas determinadas e superadas por ele. Antes disso, o estudante precisou aprender a andar, algo que os médicos acreditavam ser impossível. Aos sete anos de idade, os primeiros passos deram certo.

Depois de andar e aprender a correr, Getúlio resolveu se aventurar na prática de esportes e escolheu o futebol para realizar outro sonho. Conquistou então a posição de goleiro no time da escola. E dos bons. Já conheceu até o Neur, goleiro da seleção Alemã durante a Copa do Mundo de 2014.

Segundo o estudante, o seu objetivo sempre foi inspirar pessoas. A partir de seu exemplo e dedicação, mostrar para todo mundo que ele pode fazer coisas que muitas pessoas dizem ser impossível.

"Não tenho outra forma para fazer isso [inspirar] do que dar o meu melhor e o meu exemplo", disse o estudante.

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Getúlio escalou o pico Punta Penia, a 3.343 metros de altitude Imagem: Divulgação

A escalada, que durou três dias em meio à neve, teve início no último dia 19 de abril. Mas o convite veio em 2015, quando McCardell, aventureiro nato, estava no Monte Aconcágua durante uma viagem de moto pela Patagônia. Em um vídeo gravado por ele no local, Getúlio foi "desafiado" a escalar uma montanha com ele.

"Na época eu tinha nove anos. Fiquei emocionado e topei o convite sem saber direito o que exatamente era aquilo, mas imaginei que se ele estava me convidando é porque seria uma experiência incrível na minha vida", lembrou Getúlio.

Acho que se você não pode andar a sua vida já é uma aventura. Sempre falamos sobre essa coisa de aventura e que você deve estar preparado e se adaptar. A vida é adaptação. Aventura é adaptação. Não sei se isso foi aumentando ou se isso sempre esteve em mim Getúlio Felipe

Ao longo de quatro anos, Getúlio se preparou fisicamente e mentalmente. Dividindo o tempo, claro, com a escola e as atividades do dia a dia. "Estava disposto a dar meu máximo para chegar lá e não fazer feio. Treinei bastante na areia, nos barrancos perto de casa e às vezes usando um pedaço de madeira para simular os equipamentos que eu ia utilizar."

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A aventura teve a participação do aventureiro Pedro McCardell e do montanhista italiano Alessio Nardellotto Imagem: Divulgação

"A maior lição de todas eu acredito que tenha sido aceitar ajuda. Desde pequeno meu pai nunca me levantou e isso foi excelente, mas ali eu percebi que ter meus amigos e pessoas querendo atingir o mesmo objetivo que você é uma questão até de sobrevivência", acrescentou.

Para viabilizar a escalada, McCardell se juntou à fundação Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) Dolomitas, ao site Razões para Acreditar e ao montanhista italiano Alessio Nardellotto, que liderou a expedição.

Assim como os serviços oferecidos pelo aplicativo Lyfx, Getúlio teve uma aventura personalizada, montada por especialistas locais que já conheciam bem as montanhas.

A jornada foi em direção ao pico Punta Penia, a 3343 metros de altitude. O local é um dos cumes da montanha Marmolada, o ponto mais alto da cordilheira das Dolomitas. Tudo foi feito com orientações de médicos, especialistas na área e muito treinamento, conta o empresário.

Arquivo Pessoal
Registro de quando chegaram no ponto mais alto da montanha Imagem: Arquivo Pessoal

Depois da experiência, sua maior lembrança é a força do trabalho em equipe e do Getulinho, como chama carinhosamente o jovem.

"Vou levar de exemplo para sempre, cada um dos passos que dei ao lado do Getulinho nesta montanha. Eu o via devastado de cansaço, bufando e cheio de cãibras. Nós parávamos, alongávamos e seguíamos em frente. E, mesmo diante de um enorme precipício de mais de 1.000 metros, numa parede de neve de quase 90 graus, ele manteve a cabeça firme, e a calma para podermos avançar, sem reclamar de nada ou pensar em desistir", contou.

Para Getúlio, a maior lição de todas que aprendeu foi de aceitar ajuda e o valor da amizade. A incrível paisagem das montanhas não foi superada pela beleza de ter amigos perto dele e dando a força que ele precisava para chegar no topo.

"Isso é o mais bonito do que qualquer montanha", concluiu. Toda a aventura de Getúlio foi documentada e as imagens vão fazer parte de um filme sobre a história do estudante.