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Você acha o bibliotecário ultrapassado? Saiba que profissão está em alta

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Você acha a figura do bibliotecário ultrapassada? Saiba que ele virou um profissional disputado Imagem: Getty Images/iStockphoto

Tainara Rebelo

Colaboração para o UOL, em São Paulo

2019-05-16T04:00:00

2019-05-21T12:02:44

16/05/2019 04h00Atualizada em 21/05/2019 12h02

Resumo da notícia

  • Biblioteconomia parecia ser uma profissão fadada ao desaparecimento em um mundo digital
  • No entanto, a capacidade de buscar e organizar informações tornou o profissional essencial
  • Eles estão em empresas de engenharia, tecnologia e informação
  • E, com especialização em tecnologias digitais, podem se dar ao luxo de escolher o emprego

Como uma profissão que estava por fora dos holofotes ressurge como uma ótima opção para se trabalhar hoje em dia? É o que vem acontecendo com o curso de Biblioteconomia. A profissão ganhou novos espaços com o avanço da tecnologia dentro das empresas. Cada vez mais os profissionais saem dos livros e do papel e conquistam importantes cargos na carreira digital, como UX (User Experience) e até no combate às fake news.

A profissão "nua e crua"

O foco do bibliotecário é o conteúdo e o usuário da informação. Nesse sentido, tecnicamente seu foco é a curadoria das informações. De acordo com a professora do curso de biblioteconomia da FESP-SP, Valéria Valls, uma área que está avançando na busca de bibliotecários é a de Experiência do Usuário (UX, na sigla em inglês).

"O que nos diferencia dos profissionais da tecnologia é que somos focados no conteúdo (não nos meios de comunicação diretamente), então não precisamos saber programar, mas sim saber o que o usuário precisa e 'entregar' essa demanda para quem vai modelar os sistemas, atuando fortemente na definição de requisitos e depois, validando a percepção do usuário", detalha.

A profissão evoluiu com a sociedade. Se antes a informação só estava registrada nos livros e documentos físicos, hoje ela está registrada, por exemplo, no ambiente digital. A lógica é a mesma, só mudaram os instrumentos de trabalho.

O bibliotecário teve que adquirir, ao longo dos anos, competências relacionadas à tecnologia como por exemplo gestão de banco de dados, arquitetura da informação, noções de informatização, gestão de repositórios institucionais, etc. Hoje o que percebemos é uma demanda enorme de atuação
Valéria Valls

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Imagem: Getty Images

Como outras habilidades cita a aptidão para validar a fonte de informação, identificar notícias falsas e plágio em artigos acadêmicos.

Biblioteconomia no mercado tecnológico

"O bibliotecário é o Sherlock Holmes da internet, ou seja, ele consegue localizar informações em fontes seguras. Ele desenvolve essa competência na faculdade, tanto em fontes de informação quanto em recuperação da informação com lógica avançada de pesquisa SEO (otimização de mecanismos de pesquisa) e está habilitado a apoiar as organizações na identificação de notícias falsas, as fake news, e inclusive plágios. É um mercado muito promissor para a profissão", avalia Valls.

O domínio das técnicas de pesquisa na internet é uma competência muito valorizada especialmente em áreas como saúde, área jurídica, tecnologia e mercado financeiro -- a série norte-americana "The Librarians" demonstra essa atuação do bibliotecário de um jeito divertido.

Existe inclusive um movimento mundial conclamando os bibliotecários a ajudarem a validar conteúdo de Wikipédia, que pode se tornar uma fonte confiável de informação se for validada por bibliotecários.

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Os fundamentos da biblioteconomia são essenciais na organização de informações Imagem: Getty Images

Fora da caixinha

Outro exemplo de atuação no mercado tecnológico aconteceu com Marcos Teruo, fundador da startup Grokmaker. Habituado a trabalhar em bibliotecas e arquivos com material físico (livros e pastas de documentos), ele percebeu que sua formação seria essencial para a organização de uma empresa com o arquivo digitalizado.

"Fui visitar um cliente da rede varejista de veículos para apresentar um projeto de infraestrutura de telecomunicações e comentei que estava cursando biblioteconomia. Expliquei que havia descoberto que os fundamentos utilizados pelas Tecnologias de Informação e Comunicação (TICs) se baseavam nos conceitos estudados pela biblioteconomia há séculos", contou.

O profissional do outro lado da mesa questionou Teruo sobre como isso poderia ajudar a empresa dele, "e eu expliquei que, por exemplo, se os recursos disponíveis em sua empresa fossem mapeados (indexados), organizados de maneira racional (classificados) e disponibilizados em plataformas (catalogados) disseminadas para quem de fato necessitasse dos recursos (disseminação seletiva de informações), seus funcionários obteriam um nível de produtividade muito maior. Recebi uma proposta de emprego na hora", lembra.

A profissão "esquecida"

Mesmo com a falta de experiência na área, o mercado espera do profissional recém-formado algumas qualificações. De acordo com assessora de carreira da Catho, Carla Carvalho, ainda que de maneira rasa, ao sair da faculdade o profissional já deve demonstrar a familiaridade para atuar na organização dos acervos, administração de dados, processamento e disseminação de informações dentro do ambiente de trabalho, e para atuar no atendimento aos leitores, apoiando na busca pela informação.

Além disso, espera-se o conhecimento prévio em plataformas de bibliotecas digitais ou ainda em soluções tecnológicas que visam aperfeiçoar os processos trabalhados dentro de uma biblioteca. Realizar cursos extracurriculares, nesse caso, pode ser algo bastante interessante, especialmente quem está ingressando na carreira.

"O conhecimento de novas tecnologias pode apoiar o profissional na realização de algum projeto de implementação de biblioteca digital ou repositórios institucionais, por exemplo, sendo essa prática um grande destaque para o segmento", explica Carla Carvalho.

Há uma gama de cursos rápidos e gratuitos que podem apoiar ao profissional nesses primeiros passos de sua carreira.

Roseli Gesserame, bibliotecária consultora com mais 40 anos de trabalho na área, confirma a importância da especialização. Ela conta que quando se formou em biblioteconomia foi trabalhar em uma mineradora e sentiu a necessidade de fazer um curso técnico na área para entender melhor sobre o assunto que trabalhava.

"Aqui no Brasil o curso é de graduação e dá os requisitos básicos para conseguir trabalhar com indexação e organização, mas não te dá uma especialização digital, por exemplo."