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Beneficiada pela China no passado, Huawei hoje é "ignorada" por presidente

AFP
Ren Zhengfei, fundador e executivo-chefe da Huawei, começou carreira no Exército comunista Imagem: AFP

Felipe Zmoginski

Especial para o UOL

2019-05-30T14:50:51

30/05/2019 14h50

Resumo da notícia

  • Ex-militar, Ren Zhengfei tem sido diplomático sobre boicote dos EUA à Huawei
  • Seu passado com Partido Comunista Chinês elevou suspeitas do Ocidente
  • Nos anos 80, elo com Exército garantiu contratos generosos para a empresa
  • Apesar da suspeita, Ren não foi a jantar com maiores empresários chineses

Chá com os amigos, caminhadas pelo jardim e pijamas para passar as tardes vendo filmes na TV. A rotina do recluso fundador da Huawei, Ren Zhengfei, 74 anos, era coerente com a de um homem que superou a infância pobre e tornou-se o dono da maior empresa de telecomunicações do mundo. Mas nos últimos seis meses, por conta da crise comercial com os Estados Unidos, Ren concedeu mais entrevistas que nos últimos cinco anos.

Ex-militar, tem seguido um discurso diplomático e equilibrado em todas as conversas com a imprensa --embora com algumas farpas-- e se esquivado das provocações dos jornalistas sobre o boicote comercial efetivado pelo presidente dos EUA, Donald Trump.

Nos anos 60, Ren se filiou ao Exército de Libertação do Povo, Forças Armadas do Partido Comunista Chinês. Essa ligação lhe deu condições essenciais para ter acesso aos melhores contatos no mundo dos negócios. Nos anos 80, deixou o Exército para dedicar-se ao comércio de roteadores e produtos de telefonia. A Huawei foi fundada em 1987.

O grande salto para Ren ocorreu após a Huawei tornar-se uma fabricante, e não mais revendedora de eletrônicos. As conexões dele com o Exército chinês lhe garantiram, no início de sua operação, contratos de mais de US$ 200 milhões ao ano. Um início espetacular para qualquer empresa.

Qual é a ligação com o governo chinês, afinal?

Ren Zhengfei era figura recorrente nos jantares anuais em homenagem aos grandes empreendedores chineses. Mas não foi convidado para o último encontro, em dezembro de 2018, quando o presidente da China, Xi Jingping, reuniu líderes empresariais do país como os fundadores do Alibaba, Jack Ma e do Baidu, Robin Li, para homenageá-los.

A ausência de Ren foi interpretada como um desprestígio à sua figura, envolta em polêmicas. Mas muitos especialistas interpretaram o não-convite como um gesto generoso, que permite a Ren não associar sua imagem ao governo local quando o mundo questiona as relações público-privadas na China.

Thomas Peter/Reuters
Mulher olha para o telefone enquanto passa por uma loja da Huawei em Pequim, China Imagem: Thomas Peter/Reuters

Alem disso, as conexões da Huawei com o governo da China e com o Exército de seu país já fizeram a empresa perder contratos em muitas partes do mundo. Nos anos 2000, a empresa venceu licitação para oferecer conexão móvel no metrô de Londres, mas o serviço nunca foi implementado. O governo inglês afirmou que não poderia entregar sua telefonia a uma empresa controlada pelo governo da China.

Restrições similares são feitas nos Estados Unidos. Mesmo antes da gestão Trump, o governo americano mantém seu mercado fechado à presença da Huawei no setor de redes de telefonia. O argumento é sempre o mesmo: segurança nacional.

E embora seja possível acusar a Huawei de crescer às custas das boas relações domésticas, por esse prisma seria difícil explicar o sucesso da empresa fora da China, onde não conta com o apoio e generosidade dos governos locais. Desde 2005 --há quase uma década e meia, portanto-- a maior parte do faturamento da Huawei vem do mercado internacional.

A posição do fundador

A verdade factual, no entanto, é que a Huawei é uma empresa privada, ainda que possamos argumentar que tenha influência do governo chinês.

Desde sua fundação, a empresa, que nunca abriu capital em bolsa, é propriedade de seus funcionários, que recebem lotes de ações de acordo com sua performance. Os ativos são gerenciados por um sindicato de trabalhadores e devem ser integralmente vendidos por seus detentores quando estes deixam a empresa. O próprio fundador da empresa detém só 1,7% do capital da gigante chinesa.

Em sua série de entrevistas à mídia do Ocidente, Ren tem rebatido, ponto por ponto, as acusações de que o sucesso da Huawei se deve a suas boas conexões com Pequim.

De fato, tivemos muitos contratos com o poder público, mas só ganhamos tais concorrências porque temos mérito e competência. É preciso registrar que mesmo empresas estatais, com garantia de fornecer produtos e serviços ao governo, quebraram nos anos 90 e 2000
Ren Zhengfei, fundador e executivo-chefe da Huawei

Com disciplina adquirida nos tempos do Exército de Libertação do Povo, Ren Zhengfei repele exaustivamente as acusações de espionagem e de subordinação ao PCC.

"Somos uma empresa 100% privada, controlada por nossos funcionários e sem ligações com o governo chinês", repete como um mantra o departamento de comunicação da empresa, sempre que questionado sobre o assunto.

"Eu preferiria fechar a Huawei a fazer qualquer coisa que afetasse os interesses dos meus clientes. Estou disputando um mercado ultracompetitivo. Se alguém provar que espionamos empresas, estaríamos acabados. Não há razão para assumirmos tantos riscos bisbilhotando outras nações", afirmou o CEO da Huawei em entrevista a CNBC.

Segundo Ren, a resposta para o sucesso da sua empresa está contida em duas letras: P e D --ou seja, pesquisa e desenvolvimento.

De acordo com a empresa chinesa, o investimento anual na pesquisa de soluções inovadoras para indústria de telefonia deve chegar a US$ 20 bilhões, algo como 15% do faturamento bruto da empresa, o que explica, em parte, seu sucesso competitivo. Outro fator é a agressividade corporativa da cultura "996", que define o trabalho das 9h às 21h (9h da noite), seis dias por semana.

Em 2012, a companhia venceu contratos para fornecer tecnologia 4G para as teles do Japão, até então país referência em avanço tecnológico. Em 2018, tornou-se a primeira empresa do mundo a montar redes 5G comerciais em cidades com mais de 10 milhões de habitantes e já é a segunda maior fabricante de smartphones do mundo, atrás apenas da Samsung.

Para Larissa Wachholz, diretora da empresa de relações governamentais Vallya, apesar das acusações contra a Huawei, não há registro de caso efetivo de espionagem feito pela empresa.

"Recentemente, pesquisadores alemães encontraram um backdoor em um dos equipamentos da Huawei vendidos ao país, mas ao analisá-lo concluíram que a conexão nunca havia sido usada e que não houve intenções maliciosas", afirma Larissa.

De acordo com a especialista em relações internacionais, os desdobramentos do caso Huawei podem pressionar outros países a restringir a ação da empresa chinesa. "Avalio que, por parte do Brasil, seria um erro seguir os Estados Unidos, uma vez que somos uma economia em desenvolvimento e nos é vantajoso receber investimentos e tecnologia de empresas estrangeiras, como as chinesas", afirma.

Enquanto lida com essa nova batalha e perde jantares de gala com o presidente da China, o septuagenário fundador da Huawei está com agenda cheia e mantendo a diplomacia.

Pressionado por um repórter da BBC a dizer se sentia raiva por Meng Wanzhou, sua filha primogênita e diretora financeira da Huawei, ter sido presa e acusada de fraudes e espionagem no final de 2018, apenas respondeu: "Sinto muitas saudades".

Mao Siqian/Shenzhen
Fundador e chefe da Huawei, Ren Zhengfei (direita), apresenta produtos da empresa ao então ministro das Finanças britânico, George Osborne (esquerda), em foto de 16 de outubro de 2013 Imagem: Mao Siqian/Shenzhen

Infância pobre e perseguição política

Ren nasceu em 1944 em Zhenning, no sudoeste da China, até hoje uma das províncias menos desenvolvidas do país. Filho de professores, recebeu educação refinada, aprendeu música, literatura e matemática em casa, apesar da pobreza material o que o cercava.

Aos 14 anos, presenciou "a grande fome", nome dado ao período marcado por erros de planejamento do governo do presidente Mao Tsé-tung, que resultou em uma catástrofe alimentar que, estima-se, tenha matado entre 20 e 30 milhões de chineses.

Adulto, alistou-se no Exército de Libertação do Povo da China nos anos 60, logo após formar-se em engenharia em Chogquing. Enviado ao norte do país para controlar uma fábrica de roupas, Ren ganhou fama por desenvolver um novo método de produção que tornava as fábricas populares 30% mais produtivas.

"Era um tempo caótico na China e eu mesmo não tinha mais que três mudas de roupa", contou à agência chinesa Xinhua. O sucesso como gestor e engenheiro, no entanto, não o permitiu ascender na hierarquia do exército. Seu pai havia trabalhado, por um curto período de templo, para o Kuomintang, organização partidária inimiga dos maoístas. A origem familiar foi um empecilho para sua ascensão.

Após a morte de Mao, em 1976, um período glorioso se iniciou para Ren Zhengfei e para toda a China. As reformas promovidas por Deng Xiaoping libertaram um gigantesco potencial econômico para o país, que passou a permitir a livre-iniciativa, o investimento estrangeiro e a definição da política de "campeões nacionais", modelo que previa a formação de empresas líderes em cada setor estratégico da economia chinesa.

"Perdi muito dinheiro e fui enganado diversas vezes por não saber negociar", conta o fundador da Huawei sobre o difícil começo de vida como empreendedor nos anos 80.

"A origem dos problemas da Huawei com os Estados Unidos está, justamente, neste processo histórico. Que país entregaria sua infraestrutura de telefonia a uma empresa que nasce baseada em atender o exército de um país estrangeiro?", pergunta Roberto Dumas, professor de economia chinesa do Insper.

De acordo com Dumas, a participação do Exército de Libertação Popular da China (ELPC) está na gênese da formação das grandes companhias chinesas, o que gera desconfiança do Ocidente.

Segundo o professor do Insper, o processo de abertura da economia chinesa exigiu um acordo entre a elite que assegurou vantagens até hoje em vigor ao Partido Comunista Chinês (PCC) e ao Exército de Libertação.

"[Deng] Xiaoping, que foi um estadista visionário, percebeu que precisava reformar o país rapidamente, a tempo de aproveitar, inclusive, o grande fluxo de capital disponível no início dos anos 80", afirma Dumas. Abrir a economia, no entanto, gerava insegurança a dois pilares da China Comunista, o Exército e o partido único que governava o país.

"Nesta negociação, [Deng] Xiaoping assegurou que não existiria divisão de poder para além do PCC, assegurando um regime ditatorial estável e tranquilizando os líderes do partido. Na outra ponta, atendeu os interesses do Exército assegurando postos-chave ao alto comando do ELPC nas empresas com participação estatal", diz Dumas.

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