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Ousadas na ficção, tecnologias de Black Mirror fritariam nossos cérebros

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Recurso mental do episódio "Toda a Sua História" é incompatível com nossa cabeça Imagem: Reprodução

João Paulo Vicente

Colaboração para o UOL, em São Paulo

2019-06-08T04:00:00

08/06/2019 04h00

Resumo da notícia

  • Para especialista, série produz uma aceleração do nosso presente
  • Limitações do cérebro inviabilizariam a experiência do episódio "Versão de Teste"
  • Nele, um jogo de terror usa experiências vividas pelo próprio usuário
  • Mas experimentos científicos mostram a possibilidade de mexer em memórias

Com uma quinta temporada que acaba de estrear, a série de ficção científica "Black Mirror" conquistou espaço na cultura pop graças ao retrato pouco lisonjeiro que faz de como a tecnologia afeta as relações modernas. Realidades virtuais, acesso excessivo a memórias e a avaliação automática do valor de uma pessoa baseada nas ações dela são exemplos de tramas que já encontram eco no mundo real.

Mas, aos olhos de quem pesquisa temas correlatos dentro da academia, faz sentido essa história de "Isso é muito Black Mirror, meu"?

"A série produz uma aceleração do nosso presente. Pega os impactos da tecnologia hoje e vai um passo ou dois a frente para discutir os problemas e implicações éticas dessa tecnologia", diz Christian Dunker, psicanalista e professor da USP. Ao longo das últimas semanas, Christian mediou uma série de debates no espaço Itaú Cultural, em São Paulo, sobre essa encruzilhada a partir de ideias exploradas no programa.

No último encontro, o episódio dissecado foi "Versão de Testes" ("Playtest", no inglês), da terceira temporada. Nele, um turista chamado Cooper arruma um bico como testador de um novo tipo de videogame. A empresa fabricante do jogo de terror instala uma espécie de microcomputador chamado Cogumelo na nuca de Cooper, por onde é inserida uma inteligência artificial que vasculha os pensamentos do rapaz para encontrar seus traumas e fazer com que ele os veja ao vivo por meio de realidade aumentada.

Aos poucos, Cooper enlouquece, mas a verdadeira surpresa vem no final: enquanto o Cogumelo era instalado, o celular do rapaz tocou, o que interferiu com o processo e o matou. Na realidade, toda a experiência do episódio aconteceu durante 0,04 segundos na mente do próprio Cooper.

"Se pensarmos que o cérebro tem um parâmetro computacional de processamento, seria impossível acontecer tudo isso em 0,04 segundos. O cara queimaria", diz Silvio Meira, professor emérito do Centro de Informática da UFPE e um dos fundadores do instituto de inovação Cesar, no Recife. "Você gasta calorias enquanto está aprendendo algo. Sabe aquela história de estudou até ficar de cabeça quente? Pois é. O cérebro precisa dissipar energia."

Por mais que "Black Mirror" se aproxime de realidade, a ficção ainda demanda certas abstrações em termos de precisão científica para aproveitar a série.

"Licenças científicas são tão permitidas quanto as poéticas. Dito isso, acho interessante sempre discutir a plausibilidade das hipóteses feitas e soluções encontradas por um autor do ponto de vista do que se conhece hoje", afirma o físico Jeferson Arenzon, professor da UFRGS e criador do podcast Fronteiras da Ciência.

Isso porque, como a série aborda um futuro próximo, há uma expectativa de que os avanços tecnológicos exibidos por ali se tornem acessíveis logo mais. Em "Toda a sua História" ("The Entire Story of You"), outro dos episódios analisados, um implante chamado grão permita que as pessoas acessem - e apaguem - todas as memórias acumuladas na vida, nos mínimos detalhes.

Em um patamar completamente distinto do apresentado em "Black Mirror", há diversos experimentos científicos que mostram a possibilidade tanto de implementar memórias nas pessoas quanto de apagá-las. "Nos Estados Unidos, por exemplo, há alguns hospitais que fazem estudos para interferir em determinadas regiões neurais onde estão memórias relacionadas ao PTSD (estresse de transtorno pós-traumático) de veteranos de guerra", afirma Meira.

Divulgação/Netflix
Cena do episódio "Playtest", da terceira temporada de "Black Mirror" Imagem: Divulgação/Netflix

Perguntas importantes

Ainda que seja preciso colocar os pés no chão na análise das inovações tecnológicas exibidas na série, é impossível negar que elas suscitam discussões importantes. Em "Versão de Teste", por exemplo, há um questionamento sobre o que, de fato, é a realidade. A partir do momento em que um dispositivo é capaz de fazer com uma pessoa - e só essa pessoa - veja ou sinta determinada coisa, não seria aquilo parte da realidade dela, mesmo que ficção para o restante de nós?

A gente vai chegar no ponto onde vai ter um videogame tão imersivo que na prática é indistinguível da realidade, e isso gera uma pergunta: o que é realidade? A sua é a mesma que a minha? A realidade percebida de uma pessoa que dorme na rua em São Paulo é muito diferente da minha
Silvio Meira, fundador do instituto de inovação Cesar

No episódio em que os personagens têm acesso total à memória, por outro lado, fica claro o quanto é problemático a incapacidade de esquecer passagens do passado. Para fazer um paralelo com o mundo real, basta lembrar da quantidade de figuras midiáticas que são julgadas por postagens em redes sociais ou declarações feitas anos antes.

É como se não existisse passado --tudo é o presente. Assim, não há possibilidade de evolução ou melhora nos seres humanos. Outro reflexo disso é a constante busca pelo direito ao esquecimento de pessoas que entram na justiça para que determinados episódios de suas vidas não sejam acessadas em pesquisas na internet feitas no Google, por exemplo.

Essas mudanças tecnológicas já nos têm afetado do ponto de vista psicológico. Mas vão afetar mais radicalmente a cabeça daqueles que a gente chama de nativos digitais. Quem nasceu depois de 1995 vai ter uma vida de ponta a ponta filtrada por uma interface de tecnologia. Não temos como mensurar o impacto ainda, vai provocar problemas que a gente nem sabe
Christian Dunker, psicanalista e professor da USP

Christian compara esse cenário com a descoberta da radioatividade por Marie Curie na virada do século XIX para o XX.

"Recomendava-se cápsulas de radônio, que eram vendidas na farmácia. Afinal se energia é boa, porque não comê-la? A equipe de Madame Curie inclusive brincava com os elementos radioativos e, claro, morreram todos. A primeira geração não tem a menor ciência de riscos e tem que se estar preparado para esse tipo de Chernobyl em escala maciça, que só vai aparecer quando esses jovens estiverem na casa dos 50 anos", explica o psicanalista.

Por outro lado, em alguns casos as tecnologias descritas em "Black Mirror" são analogias de questões contemporâneas bastante reais --e ainda mais assustadoras na prática. No episódio "Engenharia Reversa" ("Men Against Fire"), um grupo de soldados caça e mata uma raça estranha de monstrengos chamados por eles de baratas.

Quando um desses monstros usa um dispositivo para interfere nos implantes cibernéticos de um soldado, ele persegue que os inimigos são na realidade humanos como ele. É uma dessensibilização com o próximo auxiliada com a tecnologia, que facilita a matança de grupos sociais vistos como párias.

É algo que já acontece na prática --sem a necessidade de qualquer implante. Em São Paulo, o número de mortes causadas por policiais civis e militares em serviço subiu 17% nos quatro primeiros meses deste ano em relação ao ano passado. Foram 252 ao todo.

Já no Rio de Janeiro, as mortes decorrentes de ações policiais atingiram um recorde histórico: 558. Vale lembrar o caso emblemático do músico Evaldo Rosa dos Santos, fuzilado com 80 tiros por soldados do exército enquanto estava caminho de um chá de bebê.

"Nas grandes ficções científicas, como '2001: Uma Odisséia no Espaço', como 'Blade Runner', a parte significativa não são as questões tecnológicas", diz Meira. "São o substrato psicológico."

Divulgação/Netflix
Cena do episódio "Engenharia Reversa" ("Men Against Fire"), de "Black Mirror" Imagem: Divulgação/Netflix

Investimento e inovação

Mas não podemos negar que a parte tecnológica é um dos atrativos de Black "Mirror", certo? A fila de 45 horas para a abertura da primeira loja da empresa chinesa Xiaomi no Brasil é um exemplo da ânsia por gadgets, novidades e inovações.

Mas por trás desses brinquedinhos, há anos de pesquisas científicas.

"Não existe tecnologia sem ciência aplicada. E não existe ciência aplicada sem ciência básica", diz Jeferson Arenzon. Por ciência básica, entenda-se pesquisas cujos resultados podem não ter um uso claro imediato. No Brasil, uma parte significativa delas é feita dentro de universidades públicos, que sofrem com recursos minguantes.

Nesse ano, o Capes, órgão subordinado ao Ministério da Educação que atua no incentivo a pós-graduação, cortou 6,7% das bolsas de mestrado, doutorado e pós-doutorado oferecidas. Além disso, o MEC contingenciou em 30% o orçamento das universidades federais.

"É preciso entender que ciência não é o acúmulo de respostas. Há descobertas feitas por acaso. O dinheiro de ciência é a fundo perdido. Vai saber se uma criança que nem nasceu desenvolve o teletransporte daqui a 100 anos a partir de algo que é estudado hoje", afirma o físico. "O estado precisa investir em ciência."

Caso contrário, a distopia do futuro pode ser causada não pelo excesso de tecnologia --mas pela falta dela.

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