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29/11/2005 - 17h01

Transfusão de sangue: uma nova bomba-relógio na China

Por Cindy Sui=(FOTOS)= PEQUIM, 29 Nov (AFP) - Ainda sob o efeito do escândalo da venda de sangue, que infectou milhares de camponeses com o vírus da Aids, a China enfrenta atualmente um número crescente de contaminações por transfusões de sangue que o governo tenta ocultar.

As principais vítimas destes contágios por transfusão de sangue contaminado são mulheres que deram à luz por cesárea ou que abortaram. Sem saber que eram portadoras do HIV, transmitiram o vírus a seus filhos e maridos.

Estes dramas não aconteceram apenas em regiões rurais isoladas, mas em hospitais públicos das principais cidades chinesas, pelo menos até 1998, ou seja, três anos depois da proibição governamental contra a venda de sangue.

Os meios de comunicação chineses calam diante de um escândalo contra o qual um número cada vez maior de vozes se levanta.

"O que quero é que as autoridades investiguem para que as pessoas infectadas saibam que estão doentes e não transmitam o vírus aos demais", disse Shen Jieyong, um cabeleireiro de 34 anos, diretamente afetado pelo problema.

A esposa de Jienyong contraiu o vírus da Aids depois de uma transfusão de sangue a que foi submetida durante o nascimento de sua filha, em 1998. A mulher morreu no ano 2000 e a menina, de oito anos, é soropositiva.

"O hospital onde minha esposa deu à luz é um grande estabelecimento. Nunca poderíamos pensar que haveria algum problema", acrescentou o cabeleireiro.

As autoridades chinesas admitiram tardiamente o escândalo causado nos anos 90 com a venda de sangue contaminado por camponeses pobres de algumas províncias do país, principalmente de Henan.

No entanto, Pequim prefere calar sobre aqueles que contraíram Aids pela existência no país de sangue contaminado.

As autoridades chinesas só proibiram a venda de sangue em 1995, enquanto há poucos anos ainda não havia regulamentado o controle nos bancos nacionais de sangue.

"Eles (as autoridades governamentais) não são muito ativos e preferem que os doentes se virem como puderem. Isto evita que tenham que desembolsar dinheiro" em tratamentos, disse Hu Jia, integrante do movimento anti-Aids.

Pequim afirma desde 2003 que o número de portadores do vírus HIV na China chega a 840.000 pessoas. Este número não variou nos últimos dois anos, o que desperta suspeitas na comunidade internacional.

Alguns especialistas da ONU já advertiram que o número de chineses infectados pelo vírus da Síndrome da Imunodeficiência Adquirida, mais conhecida como Aids, pode chegar a 10 milhões em 2010.

Segundo números oficiais, 25% dos soropositivos na China foram infectados com o vírus HIV, depois de sofrer transfusões, enquanto a maioria dos casos se deve ao consumo de drogas e ao contágio através de relações sexuais.

No entanto, para vários especialistas, as transfusões de sangue contaminado são a causa de um número muito maior de contágios do que admitem as autoridades chinesas.

"As transfusões com sangue contaminado são freqüentes", disse Wan Yanhai, diretor da Organização Não-governamental (ONG) pequinesa Aizhixing.

"Os hospitais compram o sangue de vendedores que, por sua vez, o coletam em várias regiões do país", denunciou Yanhai.

Ele explicou que estes vendedores "viajam de cidade em cidade comprando seu produto como se fosse uma profissão qualquer. A isso se soma que muitos médicos completam o salário com o comércio ilegal de sangue".

"Se o governo não agir rapidamente, a doença avançará e causará um gigantesco desastre humanitário", concluiu Jieyong.

Enquanto isso, o ministério da Saúde sustenta seu descrédito quanto ao alto número de casos de Aids relacionados com transfusões de sangue contaminado, sem dar maiores explicações sobre as bases desta 'crença'.

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