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01/12/2005 - 15h58

China cresce à custa do meio ambiente e da segurança no trabalho

PARIS, 1 dez (AFP) - A China, país mais populoso do mundo e com um ritmo de crescimento econômico que pode levá-la a ser a primeira potência mundial, confirma a cada dia que, em sua corrida pelo desenvolvimento, deixa de lado normas ambientais e de segurança no trabalho.

Duas catástrofes recentes o comprovam: enquanto uma camada de 80 km de benzeno altamente poluente chega à Rússia levada por um rio, após vazamento que se seguiu à explosão em uma fábrica petroquímica do nordeste da China, em 13 de novembro, o número de mortos na explosão de uma mina de carvão no domingo supera os 160.

O vazamento das cem toneladas de benzeno - substância cancerígena -, que segundo previsões devem chegar à primeira grande cidade russa entre 9 e 11 de dezembro, poderá ter conseqüências irreversíveis a longo prazo na região.

Se o benzeno chegar ao Mar de Ojotsk, junto à costa leste da Rússia e ao Mar do Japão, "o problema de toxicidade não afetaria só a Rússia e a China", disse Lyubov Kondrateva, especialista da Academia de Ciências russa.

O número dois da Agência russa de Vigilância dos Recursos Naturais, Oleg Mitvol, pediu às autoridades locais que proíbam a pesca e o consumo de peixe durante um ano na região russa atingida pelo benzeno.

A organização ambientalista Fundo Mundial para a Natureza (WWF) expressou, por sua vez, a preocupação com os danos no ecossistema da região, dotada de um bosque com animais e plantas em risco de extinção, como tigres siberianos, leopardos, ursos pardos e ursos negros asiáticos.

O benzeno também poderia prejudicar a longo prazo a saúde humana, advertiu Kenneth Leung, ecotoxicologista da Universidade de Hong Kong, que explicou que se uma pessoa consumir peixe contaminado, o benzeno pode chegar até o DNA humano e causar câncer.

Segundo a Agência americana de Proteção do Meio Ambiente, basta um curto período de exposição ao benzeno para que cause transtornos no sistema nervoso, afete o sistema imunológico e cause anemia, enquanto uma exposição crônica poderia causar leucemia e afetar o sistema reprodutivo.

Diante deste desastre, as autoridades chinesas agiram, escondendo a notícia durante 10 dias, enquanto as autoridades russas negam que a camada tenha chegado a seu país, como avisou Mitvol.

Estes desastres causam indignação na população, mas a falta de sindicatos livres na China impede os trabalhadores de exigirem melhoras em seus locais de trabalho.

Por enquanto só um cidadão chinês apresentou um processo contra a petroquímica onde ocorreu o vazamento, mas pede apenas uma compensação simbólica de 15 iuanes (menos de dois dólares), e diz "se conformar com uma desculpa formal".

"Os problemas ambientais na China não são algo distante. Ameaçam nossa vida diária", lamentou Pan Yue, vice-diretor da Agência chinesa de Proteção ao Meio Ambiente (SEPA), que pediu às autoridades que "se encarreguem da situação urgentemente".

O desinteresse pelo meio ambiente e pela segurança anda lado a lado com as escassas medidas de segurança nas quais trabalha a barata mão-de-obra chinesa no velho setor secundário e com a escassa responsabilidade que as autoridades assumem diante dos cidadãos.

Dos 14 maiores acidentes de mineração ocorridos no mundo desde 1990, oito foram em minas de carvão na China, sete deles com mais de cem mortos e a maioria provocada por explosões de grisu - um gás que se desprende das minas de carvão que, ao se misturar com o ar, entra em combustão e explode - em um país onde esta matéria-prima é essencial, já que abastece 70% da energia.

Só em 2004 morreram na China seis mil mineiros, segundo números oficiais, mas especialistas independentes acreditam que esta cifra pode chegar a 20.000.

Em 2005 houve pelo menos cinco catástrofes mineiras que deixaram mais de 500 mortos.

Segundo o governo, 136.755 pessoas morreram no trabalho no ano passado, embora estudos independentes considerem que este número é muito maior, em um país com 1,3 bilhão de habitantes.

Tudo isto em um país que se posiciona como a potência econômica do futuro, segundo os especialistas, com uma taxa de crescimento econômico de quase 10% que aumenta anualmente, e que está impondo suas exportações em todas as regiões do mundo, ao mesmo tempo em que atrai investimentos de um número cada vez maior de países, especialmente com vistas à realização, em Pequim, dos Jogos Olímpicos de 2008.

Para Li Qiang, diretor do instituto China Labor Watch, com sede em Nova York, os empresários chineses estão mais concentrados em enriquecer do que em investir o suficiente em infra-estruturas, que estão "velhas e precisam ser substituídas".

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