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17/01/2006 - 15h29

Fatma, de 16 anos, morta pela gripe aviária e pela ignorância

Por Florence Biedermann=(FOTO)= ANCARA, 17 jan (AFP) - Seu belo rosto de madona emocionou a Turquia: a última vítima da gripe aviária, Fatma Özcan, de 16 anos, morreu porque não foi levada a tempo ao hospital, em conseqüência das duras e miseráveis condições de vida no extremo leste do país, onde a doença já fez quatro mortos.

A ignorância da população é o "principal desafio" das autoridades em seus esforços para evitar a propagação do vírus mortal H5N1, sublinhou nesta segunda-feira o ministro da Agricultura Mehdi Eker.

A história de Fatma é um caso emblemático dessa dificuldade do governo.

Ela foi levada, com seu pequeno irmão Muhammed, de 5 anos, ao hospital de Dogubeyazit, pequena cidade do leste próxima da fronteira iraniana, no dia 10 de janeiro. Os médicos disseram a seu pai que os dois precisavam ser imediatamente transferidos para o hospital de Van, que dispõe de infra-estrutura mais sofisticada.

"Não tenho cartão verde (este cartão permite tratamento médico gratuito no sistema de saúde turco)", lamentou o pai. "Não posso ir a Van. Se eles tiverem de morrer, que morram!", afirmou diante das televisões. "Que cuidem deles aqui!", acrescentou.

Os dois irmãos chegaram a ser levados para Van no dia seguinte, mas os sintomas já haviam aparecido há uma semana. Só que o Tamiflu, único remédio para combater a gripe aviária no momento, deve ser administrado nas 48 horas para ser mais eficaz.

Fatma tinha 16 anos, mas nos documentos oficiais sua idade era de 12 anos, já que ela só foi registrada aos 4 anos de idade. Esta é uma prática corrente nas áreas rurais turcas, onde é freqüente os pais não registrarem as filhas, para evitar que sejam enviadas à escola - o que é obrigatório a partir dos 8 anos - ou que ganhem uma parte da herança.

A mãe de Fatma morreu e a menina vivia com a madrasta. Nunca tinha ido à escola.

Conscientes do problema, as autoridades turcas e o Fundo das Nações Unidas para a infância (Unicef) lançaram em 2003 um programa batizado: "Vamos meninas, para a escola!", no leste e no sudeste da Turquia.

Por causa da pobreza e da cultura patriarcal, quase um terço das meninas em idade escolar, ou seja, 640 mil pessoas, não estudam na Turquia, constatou o Unicef.

Fatma dedicava-se às tarefas domésticas. No dia 31 de dezembro, foi ela que estrangulou e preparou o pato da festa, com a ajuda de seu pequeno irmão Muhammed.

No dia 4 de janeiro, apareceram os primeiros sintomas. No dia 10, o pai os levou ao hospital de Dogubeyazit. Fatma morreu no dia 15 de janeiro e foi enterrada ao lado de sua mãe, na pequena cidade de Sagdic.

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