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04/05/2006 - 16h53

Psicanálise perde espaço para a neurociência

Por Isabel Parenthoen PARIS, 4 mai (AFP) - Quando se fala em inconsciente, o nome de Sigmund Freud é a associação direta. No entanto, 150 anos depois do nascimento do médico vienense, a psicanálise, criada por ele, perde terreno para as descobertas da neurociência, que descrevem operações inconscientes do cérebro sem relação com a teoria freudiana dos impulsos reprimidos.

"Três quartos da atividade cerebral não são conscientes", afirma Pierre Buser, neurologista e membro da Academia de Ciências francesa. Sem isto, explica, "teríamos tantas visões, tantas percepções, que assediariam sem parar a consciência".

Estas "operações mentais elementares" que o cérebro realiza constituem "o inconsciente cognitivo", explica Nicolas Georgieff, professor de psiquiatria da Universidade de Lyon-I, psicanalista e membro do Instituto de Ciências Cognitivas.

Seu aspecto mais conhecido é a memória implícita, os automatismos que nos permitem caminhar, comer ou dirigir um carro sem pensar em fazê-lo. Para cada ação existe, ainda, uma "preparação para a ação", seqüência muito breve e inconsciente de menos de 500 milissegundos que antecede à ação.

Há algumas décadas, cientistas demonstraram também a existência da percepção subpreliminar ou subliminar, aquelas imagens breves demais para serem percebidas de forma consciente, mas que influem nas reações do indivíduo. Colocados perante uma variedade de palavras e números, os participantes das experiências escolhem sistematicamente aquele ou aquela projetada antecipadamente durante milésimos de segundo. Os sinais subliminares acionam as áreas de preparação do gesto pedido perante a imagem consciente percebida.

Mas os cientistas constataram outros efeitos em campos do inconsciente cognitivo que não conseguem explicar. Por exemplo, a "visão sem ver" dos cegos, que apontam o dedo na direção de estímulos luminosos que não percebem conscientemente. Ou a heminegligência, patologia que impede o indivíduo de perceber a metade de seu campo visual, tátil, e inclusive cognitivo. Uma pessoa assim não é capaz de diferenciar entre um desenho de uma casa perfeita e outro de uma casa cuja metade foi incendiada. No entanto, quando perguntada, sempre dirá que prefere viver na primeira.

A priori, nada nestas descobertas contradiz a explicação psicanalítica do inconsciente, este desconhecido feito de lembranças e impulsos reprimidos.

Mas o campo de pesquisas das neurociências se baseia na experimentação graças, em particular, às tecnologias de imagem magnética (IRM). Este é justamente o ponto fraco da teoria freudiana, afirma Pierre Buser, autor de "L'inconscient aux mille visages" (O inconsciente das mil caras, numa tradução literal). "Freud criou um sistema perfeitamente lógico, mas totalmente indemonstrável", explica.

Para muitos cientistas, com o filósofo Karl Popper (1902-1994), a psicanálise não pode ser considerada ciência, pois não é irrefutável: o caráter pessoal e imprevisível do trabalho analítico não permite repetir as experiências.

Psicanalistas e especialistas em ciências cognitivas têm "um ponto de vista totalmente diferente para observar a mesma estrela", afirma Nicolas Georgieff. Salvo algumas exceções, não se comunicam.

O progresso tecnológico permitirá talvez um dia demonstrar "o inconsciente das profundezas", especula Pierre Buser. Enquanto isso, avalia, "não se podem condenar as disciplinas sob o pretexto de que escapam à exploração".

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