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01/03/2007 - 15h48

Virgínia desculpa-se por escravidão; britânicos fazem passeata para exigir o

mesmoWASHINGTON, 1º mar (AFP) - A Virgínia, primeiro estado dos Estados Unidos a se arrepender de seu passado escravocrata, abriu esta semana um precedente para uma resolução nacional na matéria, enquanto cerca de 30 ativistas cristãos britânicos iniciaram nesta quinta-feira uma passeata de 400 km na Inglaterra para pressionar o governo britânico e outras nações a pedirem perdão pela escravidão. "Queremos antes de tudo pressionar o Reino Unido, a Europa e todas as outras nações que praticaram o comércio de escravos a pedirem perdão", declarou Andrew Winter, membro da Lifeline Expedition, uma organização cristã. A passeata está prevista para partir de Hull, no nordeste da Inglaterra, e terminar em Londres, onde os participantes se encontrarão no dia 24 de março numa manifestação conduzida pelas duas primeiras autoridades da Igreja anglicana, os arcebispos de Canterbury, Rowan Williams, e de York, John Sentamu. O primeiro-ministro adjunto John Prescott se juntará ao grupo numa determinada etapa da marcha.

Nos Estados Unidos, a Virgínia (leste), que se beneficiou do tráfico de escravos entre os séculos XVII, XVIII e XIX, adotou no final de fevereiro uma resolução que expressa "profundo arrependimento" por seu papel no comércio de escravos e reconhece as "significativas contribuições" dos afro-americanos a esse estado e ao país. A decisão adotada pelo Congresso estatal da Virgínia, por iniciativa de dois representantes descendentes de escravos, poderia ter eco em outros estados que já avaliam o tema, como Missouri (centro), Maryland (leste), Mississippi (sul) ou Rhode Island (nordeste). Embora o ex-presidente democrata Bill Clinton (1993-2001) tenha expressado seu "arrependimento" pelo papel de seu país no comércio de escravos, e seu sucessor, o republicano George W. Bush, o tenha qualificado como "um dos maiores crimes da História", os Estados Unidos como país não se desculparam oficialmente.

"Este é um grande passo para abordar a história americana com honestidade", declarou à AFP o historiador Roger Wilkins. "Meus professores me ensinaram que a escravidão era algo menor. Mas não era secundário na História americana", disse este professor da Universidade George Mason, na Virgínia.

"A História, tal como é ensinada, sempre foi sobre os brancos, a contribuição dos negros sempre é minimizada", acrescentou.

Em meados do século XIX, nas terras do Novo Mundo, trabalhavam cerca de quatro milhões de escravos. Apenas na Virgínia, onde os primeiros escravos chegaram da África há cerca de 400 anos, havia cerca de 500.000 negros.

O presidente Thomas Jefferson proibiu a importação de escravos da África no dia 2 de março de 1807, mas a decisão, que não pretendia terminar explicitamente com a escravidão, não foi respeitada nos estados do sul. A escravidão foi abolida em 1865, durante a Guerra de Secessão.

"Não se trata tanto do passado, mas do futuro. Temos de compreender a herança da escravidão hoje", disse à AFP Joanne Martin, diretora negra do Museu de cera dos grandes negros americanos, em Baltimore, Maryland. "As simples desculpas sem exemplos concretos do impacto da escravidão nos Estados Unidos e do que continua acontecendo atualmente não têm nenhuma substância", comentou Martin em relação à resolução votada na Virgínia.

"É uma resposta escandalosa perante a enormidade do drama que a escravidão representa para o povo negro", afirmou por sua vez Russell Adams, sociólogo da Howard University de Washington, uma das mais antigas e prestigiosas universidades negras.

Adams mencionou a discriminação racial, a pobreza, "a terrível doença" de ser negro.

"É como se alguém matasse a sua mãe e depois dissesse: 'Lamento'", exclamou este professor negro que pede indenizações financeiras para os descendentes dos escravos, "assim como reconstruíram a Alemanha depois da Segunda Guerra Mundial".

"Se isto ficar assim, é um insulto", opinou.

Não é despropositado pensar numa resolução nacional na matéria, indicam alguns especialistas.

Segundo Gerald Foster, do Museu nacional da escravidão em Fredericksburg, Virgínia, "os Estados Unidos devem se preparar para essas desculpas nacionais", mas "isso levará tempo". "Demorou um século e meio para que o Congresso pedisse desculpas pelos linchamentos", disse Joanne Martin, mas "não é impossível que os Estados Unidos votem um dia uma resolução nacional" sobre a escravidão.

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