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14/01/2010 - 16h35

Corpos e feridos amontoados no maior hospital de Porto Príncipe

Centenas de corpos apodrecem sob o sol no Hospital Central de Porto Príncipe diante do olhar impotente dos haitianos e no jardim do centro médico, que foi quase totalmente destruído pelo terremoto, enquanto os feridos imploram por um médico e rezam para que não acabem no "pátio dos mortos".

Destruição no Haiti

  • Imagens aéreas mostram a destruição em Porto Príncipe, capital do Haiti, depois do terremoto de sete graus na escala Richter que atingiu o país


Sem luvas e com algodões empapados em álcool para se protegerem do odor da putrefação, as pessoas procuram parentes em meio a uma montanha de corpos, mutilados, seminus, cobertos de poeira e infestados de moscas, com a esperança de dar a eles um enterro digno.

"Finalmente encontrei minha prima", afirma Jean-Lionel Valentin, apontando para um corpo coberto com um lençol branco. "Mas agora ninguém quer me ajudar a levá-la. Os taxistas cobram uma fortuna e vou ter que deixá-la aqui de novo", explica.

O terremoto ocorrido na terça-feira no Haiti, de 7,0 graus na escala Richter, devastou Porto Príncipe e deixou dezenas de milhares de mortos.

"Deus deve estar com raiva de nós porque nos atingiu com força", repete Florentine, enquanto suporta as náuseas e procura a sua irmã entre os mortos.

Famílias inteiras surpreendidas pela morte jazem neste necrotério superlotado. A cada meia hora, um caminhão da Polícia local vem e despeja mais corpos neste pátio. Sem luvas, sem máscaras e com suas próprias mãos, dezenas de voluntários ajudam na tarefa.

"Não perdi ninguém da minha família, mas choro por estas pessoas e por meu país. Como sairemos disto?", se pergunta Alius Luc, engenheiro elétrico, que acompanhou um amigo ao necrotério.

Quer ajudar as vítimas do terremoto no Haiti?


"É preciso enterrar os mortos para evitar que a cidade se transforme em um grande foco de infecção", afirma uma enfermeira observando a área desolada.

O Hospital Central de Porto Príncipe foi tão danificado pelo terremoto que nenhuma de suas instalações pode ser utilizada. Dois médicos haitianos tentam atender, exaustos, as dezenas de feridos que invadiram o centro médico e esperam ajuda, deitados no chão ou em colchões encontrados no hospital.

Roupas ensopadas de sangue e restos de comida cercam as vítimas. "Doutor, doutor", soluçam ao mesmo tempo quando veem um médico.

"Damos calmantes a eles e os hidratamos com soro. Suturamos alguns ferimentos, mas, por enquanto, não temos nada mais a fazer com os mais graves", lamenta o doutor Givenson Foite.

Vários feridos gritam incansavelmente de dor e injetam em si mesmos os calmantes que encontraram na farmácia do hospital. Alguns deles morrem devido à hemorragia, diante dos olhares perplexos de seus familiares.

"Não vi nenhum outro médico, nem mesmo estrangeiros. Dizem que os aviões de ajuda humanitária chegaram. Está claro que não chegaram aqui", afirma o segundo dos médicos, que não quis se identificar.

"Não temos como operar, nada funciona. Será preciso amputar várias pessoas se quisermos salvar suas vidas", repete para si mesmo este cirurgião, enquanto tenta proteger com pedaços de pano o braço ferido de uma menina de 10 anos.

"Houve médicos mortos e a escola de enfermeiras desabou. Sabemos que muitos profissionais morreram. Outros estão atendendo suas famílias ou seus vizinhos", explica Foite.

Ao seu lado, uma mulher geme de dor e mostra sua mão, ligada ao resto do braço apenas por alguns tendões.

"Peçam ajuda, para que alguém de algum lugar do mundo venha nos socorrer", suplicam os familiares a qualquer estrangeiro.

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