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24/01/2010 - 13h13

Sanaa, no Iêmen, pode se tornar a primeira capital sem água

Sanaa pode se tornar dentro de cinco ou dez anos a primeira capital do mundo totalmente desprovida de água, um problema que já existe em diversas regiões do Iêmen.

Além da segurança e do terrorismo, a escassez de água, fator desencadeador de conflitos, deverá ser um dos principais temas mencionados na conferência sobre o Iêmen, no dia 27 de janeiro em Londres.

Com 125 metros cúbicos de água por pessoa por ano, o Iêmen, um país de 23 milhões de habitantes, é uma das nações mais secas do planeta. A média mundial de água por pessoa é de 7.500 metros cúbicos. A ONU considera que abaixo de mil metros cúbicos, o desenvolvimento do país é prejudicado.

Localizada a 2.300 metros de altitude, Sanaa, que tem dois milhões de habitantes, tem uma rede de abastecimento de água insuficiente, com bairros totalmente ignorados e outros onde o líquido sai das torneiras uma vez a cada 20 dias.

O resultado é que centenas de empresas privadas que se dedicam à exploração intensiva dos praticamente esgotados lençóis freáticos vendem a água em caminhões-tanques e recipientes de todos os tipos.

Mohammad Maayad, 27 anos, é o dono de uma destas empresas. "Tiro água a 480 metros de profundidade. Quando comecei, tirava a 400 metros. O nível cai mais ou menos três metros a cada ano", afirmou.

"Sanaa pode se tornar a primeira capital do mundo sem água", escreveu o centro de reflexão Carnegie Endowment for International Peace, em relatório publicado no ano passado.

De acordo com um especialista europeu, que não quis ser identificado, os lençóis freáticos de Sanaa estavam a apenas 20 metros de profundidade nos anos 60.

"O problema é o qat", sentenciou. Esta planta com propriedades euforizantes mastigada pela grande maioria dos homens no Iêmen "monopoliza entre 40% e 50% da água destinada à agricultura, que por sua vez representa 90% do consumo total do país".

"O qat rende até quatro vezes mais que o café, e a maioria das grandes plantações pertence aos chefes de tribos, poderosos demais para o governo", explicou.

O preço do óleo diesel que alimenta as bombas é altamente subsidiado: vendido a 17 centavos de dólar o litro, ele torna o bombeamento de água praticamente gratuito.

Alertadas há anos por especialistas internacionais, as autoridades aprovaram em 2002 uma lei proibindo o bombeamento por empresas privadas.

"É uma boa lei. Normalmente, é necessária uma autorização para cavar um poço", disse à AFP o especialista alemão Dierk Schlütter.

"No entanto, esta lei não é aplicada. O poder não está nas mãos do Estado, e sim dos chefes tribais. Se o chefe autorizar, e ainda tiver plantações de qat, o poço será cavado de qualquer jeito", lamentou.

"A única solução seria proibir o qat, mas a planta é tão integrada à sociedade que é impossível fazer isso. Seria a mesma coisa que proibir a cerveja na Alemanha ou o vinho na França. Por outro lado, os iemenitas vão chegar muito em breve a um ponto em que terão de escolher entre mastigar qat ou dar água para seus filhos", prosseguiu Schlütter.

Os lençóis freáticos que alimentam Sanaa estarão totalmente secos "em 2015 ou 2017, não se sabe ao certo, alertou. "Sempre se escutam rumores sobre um deslocamento da capital para o litoral, mas nada é feito".

O esgotamento dos lençóis freáticos pode ser adiado encaminhando, como já vem sendo feito para algumas cidades, a água em caminhões-tanques. Porém, a medida elevaria ainda mais o preço da água, que já custa muito caro em alguns bairros, o que pode desencadear tumultos.

Conflitos por água já foram registrados no país nos últimos anos, principalmente no sul.

"O governo está entre a cruz e a espada. Se tentar cortar a produção de qat, haverá reações violentas dos produtores, mas se não o fizer, terá de lidar em breve com tumultos provocados pela escassez de água", resumiu Schlütter.

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