UOL Notícias Notícias
 

01/03/2010 - 14h33

Mujica, o ex-guerrilheiro que se torna presidente

Foi guerrilheiro, se diz panteísta, cultiva flores em uma fazenda: José 'Pepe' Mujica, que nos anos 60 e 70 buscou desmontar o Estado "burguês" por meio da luta armada, assume a Presidência do Uruguai com a imagem de um homem que seduz os empresários e a oposição.

Como um encantador de serpentes, Mujica conseguiu seduzir a oposição política, que durante a campanha eleitoral o comparou de maneira desfavorável com o sóbrio presidente Tabaré Vázquez.

É que o ex-guerrilheiro não vestia terno - algo que começou a fazer durante a campanha, ainda que sem gravata - , se expressa em uma linguagem popular e não possui diploma universitário.

Entretanto, a oposição agora valoriza sua vontade, e abre espaço no governo à sua capacidade de "dialogar" e "escutar".

Seu rival nos comícios, o ex-presidente liberal Luis Lacalle (1990-1995), agora senador, disse que "com Mujica encontramos um tom de conversa muito bom", já que "tem um pragmatismo que (o) distingue entre os demais dirigentes".

O senador do Partido Colorado, Ope Pasquet, destacou "seu dom de comunicação", enquanto o líder do pequeno Partido Independente, Pablo Mieres, falou de seu "estilo mais horizontal (que Vázquez), que permite que ele tenha um diálogo mais aberto".

Mesmo assim, Mujica deslumbrou empresários locais e estrangeiros com um almoço há duas semanas em Punta del Leste, durante o qual os convidou a investir no Uruguai.

É que o novo presidente, de 74 anos, que reconheceu que o principal erro da guerrilha foi "subestimar" o republicanismo dos uruguaios, foi um dos motores da inserção política dos tupamaros no sistema político e de sua entrada na coalizão de esquerda Frente Ampla (FA) em 1989.

Foi o primeiro tupamaro a ingressar na Câmara de Deputados em 1995. Chegou pela primeira vez ao Palácio Legislativo em uma Vespa, vestido informalmente, e um policial que identificava as pessoas o perguntou: "Vai demorar muito, Din?" (em alusão ao seu apelido, Don Mujica).

"Eu trabalho aqui", foi a resposta de Mujica, que no ano 2000 ingressou no Senado junto com o também ex-líder tupamaro Eleuterio Fernández Huidobro.

Em 2005, quando a esquerda chegou pela primeira vez ao governo do país, Mujica - como primeiro senador da lista mais votada e terceiro na sucessão presidencial - abriu a legislação e tomou juramento dos outros senadores e do presidente Tabaré Vázquez.

Uma guinada incrível na vida de um homem que viveu na clandestinidade desde 1969, que participou de uma fuga em massa de 111 presos em setembro de 1971, e que desde 1972 - após a derrota militar da guerrilha - foi preso político da ditadura (1973-1985) até sua libertação junto a outros companheiros em 1985 através de uma anistia.

Submetido a um isolamento absoluto e a condições desumanas, Mujica confessou que naqueles anos sofreu com transtornos psiquiátricos e que chegou "a falar com as formigas".

Mas o Mujica de hoje não é o dos velhos tempos. Ficou mais moderado, sobretudo após sua entrada no Parlamento, e disse estar disposto a "abraçar cobras" para conquistar acordos.

Também demonstrou ser um importante articulador entre os diferentes setores da FA representados no gabinete de Vázquez, quando ocupou a cadeira de Pecuária entre 2005 e 2008.

Casado com a senadora e também tupamara Lucía Topolansky e sem filhos, Mujica não se mudará para a residência presidencial e viverá em sua chácara de Rincón del Cerro, na zona rural a oeste de Montevidéu.

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    0,59
    3,276
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h21

    -1,54
    61.673,49
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host