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09/04/2010 - 23h19

Papa evitou expulsão de padre pedófilo nos anos 80

O hoje Papa Bento XVI se opôs à expulsão de um padre da Califórnia acusado de pedofilia nos anos 80, revelam cartas trocadas pelas autoridades eclesiásticas e divulgadas nesta sexta-feira, nos Estados Unidos.

Uma série de cartas apresentadas pelo advogado Jeff Anderson revela que o então cardeal Joseph Ratzinger ignorou, em várias ocasiões, os pedidos das autoridades da diocese de Oakland (norte da Califórnia) sobre a necessidade de se expulsar o padre Stephen Kiesle, acusado de abuso sexual contra menores em 1978.

Segundo as cartas, que datam de 1981 e 1982, as autoridades da Igreja Católica na Califórnia recorreram a Ratzinger, então prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, para destituir o padre Stephen Keisle "pelo bem da Igreja Universal".

Em carta enviada ao Vaticano em junho de 1981, o bispo de Oakland, John Cummins, pede a expulsão de Kiesle e cita um caso judicial de 1978, no qual o padre admite que abusou sexualmente de seis crianças, com entre 11 e 13 anos.

Outra carta de Cummins, enviada em fevereiro de 1982 ao cardeal Ratzinger, volta a pedir a destituição de Kiesle.

"É minha convicção de que não haverá escândalo se este pedido for atendido", escreveu Cummins, advertindo que poderia "surgir um escândalo na comunidade caso o padre Kiesle recebesse permissão para voltar à atividade do ministério".

Em setembro de 1982, Cummins enviou mais um pedido contra Kiesle, e teve como resposta que o problema seria resolvido "no momento oportuno".

Em 1985, quatro anos após a primeira carta da diocese de Oakland pedindo a expulsão de Kiesle, o cardeal Ratzinger respondeu ao bispo Cummins admitindo a "gravidade" do caso, mas se declarou reticente em adotar ações imediatas porque precisava refletir sobre o dano que isto poderia provocar na Igreja.

Ratzinger disse ainda a Cummins que o caso deveria ser submetido a uma "cuidadosa consideração, o que exigiria um período mais longo que o de costume".

Diante da situação, o padre da diocese de Oakland George Mockel disse a Cummins que tudo parecia uma estratégia do Vaticano para "congelar" o caso "até (Kiesle) envelhecer". O padre pedófilo tinha então menos de 40 anos.

Kiesle foi destituído finalmente em 1987, mas ainda trabalhou como coordenador em uma paróquia de Pinole, no norte da Califórnia, durante oito meses, disse à AFP Anderson, advogado de duas vítimas do padre.

Segundo Anderson, as cartas "definitivamente colocam o cardeal Ratzinger e o Vaticano no meio de uma operação de encobrimento e negação contínua" dos casos de pedofilia na Igreja Católica.

O porta-voz do Vaticano, Ciro Benedettini, defendeu a atuação de Ratzinger afirmando que o "então cardeal não encobriu o caso, como fica claro na leitura das cartas, mas expressou a necessidade de analisar a denúncia com cuidadosa atenção, tendo em conta o bem de todos os envolvidos".

Pelo caso de 1978 Kiesle foi condenado a três anos de liberdade condicional, mas em 2004 foi punido novamente, com seis anos de prisão, por abusar de uma menina em 1995.

Para Anderson, o padre Kiesle obteve uma pena muito branda no caso de 1978 "por influência da Igreja".

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