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14/04/2010 - 13h21

Vaticano se distancia de declarações vinculando pedofilia e homossexualidade

O Vaticano se distanciou das controversas declarações do número dois da Santa Sé, cardeal Tarcisio Bertone, que estabeleceu vínculos entre a homossexualidade e a pedofilia.

"As autoridades eclesiásticas consideram que não são competentes sobre temas de caráter médico e psicológico e assinalam os estudos especializados e as investigações em curso sobre o tema", afirma uma nota divulgada pelo porta-voz do Papa, padre Federico Lombardi.

Bertone, secretário de Estado do Vaticano, declarou na segunda-feira, durante uma visita a Santiago do Chile, que a Santa Sé tomará novas iniciativas supreendentes contra a pedofilia.

O cardeal afirmou que a pedofilia entre os sacerdotes tem mais a ver com a homossexualidade do que com o celibato.

"Muitos psicólogos, muitos psiquiatras, demonstraram que não há relação entre celibato e pedofilia, mas muitos outros comprovaram, e me disseram recentemente, que há relação entre a homossexualidade e a pedofilia. Isto é verdade, este é o problema", disse Bertone em uma coletiva de imprensa em Santiago.

As declarações causaram enérgicos protestos nos mais diferentes setores da sociedade. A França condenou energicamente o "amálgama inaceitável" entre pedofilia e homossexualidade feito por Bertone.

"É um amálgama inaceitável que condenamos", afirmou o porta-voz da chancelaria francesa, Bernard Valero, ao ser indagado sobre a posição da França a respeito das declarações.

Autoridades, médicos e movimentos de defesa de grupos homossexuais no Chile pediram a Bertone que prove as ligações da homossexualidade com a pedofilia.

O líder do Movimento de Integração e Libertação Homossexual (Movilh), Rolando Jiménez, exigiu que o cardeal mostre provas que justifiquem as afirmações.

Especialistas médicos também descartaram a ideia. "Não me parece possível pensar que haja uma relação direta entre a homossexualidade e a pedofilia", disse a professora da Universidade do Chile Tamara Galleguillos.

Para os homossexuais católicos portugueses da Novos Rumos, essas afirmações "continuam a aumentar o fosso entre a Igreja, como uma comunidade de fiéis, e uma certa hierarquia".

Por parte da imprensa, o jornal La Libre Belgique, considerado próximo à Igreja, denuncia "uma gafe a mais": "Estigmatizar a comunidade homossexual com argumentos sem base não torna mais serena a relação entre Roma e a opinião pública".

As autoridades do Vaticano "estão em uma situação de crise e se dão conta perfeitamente de que este escândalo é muito perigoso para a Igreja", analisou para a AFP o vaticanista Bruno Bartoloni. Em um golpe, "eles ficaram um pouco apavorados e passaram dos limites", disse.

Já no dia 6 de abril, as afirmações de Angelo Sodano, antecessor do cardeal Bertone, que havia comparado a "perseguição" ao Papa às críticas ao polêmico Pio XII, causaram o descontentamento da comunidade judaica.

Outro exemplo: na Sexta-feira Santa, o pregador do Vaticano havia traçado indiretamente um paralelo entre o antissemitismo e os ataques à Igreja, indignando tanto os judeus como as vítimas de abusos.

"A forma como o cardeal Bertone se expressou não foi oportuna. O resultado foi devastador, porque abriu uma nova frente de polêmicas depois das suscitadas nas Sexta-feira Santa", confirmou à AFP Andrea Tornielli, vaticanista do jornal Il Giornale.

Um editorialista do Corriere della Sera, Piero Ostellino, vai até sugerir que o Papa deveria ser "protegido" de "declarações imprudentes de alguns altos prelados".

Francesco Merlo, do La Repubblica, vê nessas declarações "uma confissão dramática de fraqueza que traduz o estado de confusão no qual se encontra a Igreja Católica neste momento".

Desde o início das revelações sobre antigos casos de abusos sexuais cometidos contra menores por padres, a Igreja Católica alemã perde fiéis aos milhares no sul católico do país. Apenas em março, duas dioceses perderam mais de 5.000 membros, indicou nesta quarta-feira a imprensa alemã.

Nestas condições, qual é a saída para a Igreja? Bruno Bartoloni prega "um consistório reunindo os cardeais do mundo inteiro para discutir o problema", que seria "uma iniciativa importante em relação à opinião pública católica".

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