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27/04/2010 - 12h09 / Atualizada 31/05/2010 - 19h00

Vítima de abusos de padres: "Se falássemos algo, o castigo era maior"

"Se falássemos, nos arriscávamos a sofrer castigos mais severos", explicou Paddy Doyle, que tinha quatro anos quando foi internado num reformatório dirigido pela Igreja Católica irlandesa e onde sofreu abusos regularmente. Aos 38 anos, finalmente pôde denunciar os sofrimentos pelos quais passou.

Sua mãe acabara de morrer vítima de um câncer, seu pai havia se enforcado diante dele e de sua irmã de dois anos. Mas, quando a justiça estudou seu caso, em 1955, decidiu interná-lo numa instituição "por não ter tutor".

Apesar de sua pouca idade, foi enviado para um reformatório em Cappoquin (oeste), onde, durante quatro anos, sofreu todos os tipos de abusos sexuais, físicos e mentais.

Mas as crianças se calavam por um medo aterrorizante. "Não podíamos nem sonhar em falar. Se você dissesse algo, era castigado seriamente, deixavam você sem comida ou contato com as outras crianças. Então deixávamos para lá", contou à AFP.

"A ordem era o silêncio", explicou, recordando a barreira imposta pela Igreja onipotente. "O país estava dirigido por ordens religiosas: as escolas, os hospitais e alguns dizem que, inclusive, o governo. A Igreja movia todas as peças. Há 20 anos não se podia abrir uma escola se não houvesse um membro da Igreja no conselho de administração".

Aos oito anos, Paddy foi diagnosticado com uma distonia, um transtorno neurológico que afeta os músculos. Foi transferido de hospital em hospital, sempre religiosos, onde sofreu outros abusos e foi alvo de "experimentações cirúrgicas". "Entrei andando e saí numa cadeira de rodas", explicou, recordando que nunca mais recuperou o uso das pernas.

Aos 38 anos por fim resolveu falar: "Sentei-me diante de meu computador e disse: 'Quero te contar algo. Ele não me contestou'".

Escreveu então um livro, "The God Squad" ("A Brigada de Deus"), que foi lançado em 1990. Depois da negativa de um primeiro editor, que disse que o livro era bom, mas muito arriscado para ser publicado, uma editora independente aceitou o desafio. Só que a imprensa irlandesa, incrédula, não quis ajudar em sua divulgação.

A incredulidade era maior porque Paddy acusava particularmente as freiras, que dirigiam o reformátorio, e não os religiosos. "Muita gente não podia aceitar a ideia de que uma mulher pudesse cometer os abusos", explica.

No entanto, "The God Squad" se converteu rapidamente num sucesso de vendas e trouxe à luz uma verdade que poucas pessoas queriam aceitar, atraindo a atenção da mídia.

Mas ainda não foram revelados todos os segredos sobre os anos negros da Irlanda. "A negação continua", afirma Doyle. "Por que esta gente não está na prisão?", revolta-se. "São crianças estupradas, um crime grave. Do papa para baixo, todos deveriam comparecer ante a justiça", conclui.

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