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27/07/2010 - 14h38

Argentina: identificados corpos de francês e mexicana mortos na ditadura

MELINCUE, Argentina, 27 Jul 2010 (AFP) -Os restos mortais da mexicana Cristina Cialceta e do francês Yves Domergue, desaparecidos na ditadura argentina, foram identificados depois de passarem 34 anos enterrados como indigentes no cemitério de um povoado a 340 km de Buenos Aires, anunciou nesta terça-feira o irmão de uma das vítimas.

"Encontramos meu irmão e sua namorada. Foram identificados. Depois de 34 anos de desgraça, sentimos alívio por encontrá-los", disse à AFP Eric Domergue, 54 anos, o único da família que vive na Argentina.

A presidente Cristina Kirchner vai liderar na quarta-feira uma homenagem às vítimas na Casa Rosada.

"Toda homenagem é merecida, pelo que eles foram, pelo que lutaram. Que isso sirva para que, por um instante, Yves represente os 30.000 desaparecidos" da ditadura (1976-1983), segundo estimativas dos órgãos humanitários, disse o irmão, emocionado.

Os corpos de Yves, um dos 18 franceses vítimas do terrorismo de Estado, e Cristina, uma das duas mexicanas desaparecidas, estavam no cemitério público de Melincué (340 km a noroeste), um povoado rural de 2.400 habitantes na província de Santa Fé (centro-leste).

Tinham sido enterrados ali sem identificação em 29 de setembro de 1976, três dias depois de Agustín Buitrón, o dono de um terreno perto do local, já morto, ter encontrado as duas vítimas alvejadas em uma rodovia rural.

Depois de décadas de buscas, o círculo se fechou graças a habitantes do povoado de Melincué, entre eles um ex-funcionário judicial, Jorge Basuino, 61 anos, que foi atrás do caso ao longo dos anos, e a professora Juliana Cagrandi, 48 anos, que em 2003 instou seus alunos do último ano da escola média a investigar o tema.

Estudantes e professores continuaram empenhados até serem atendidos na secretaria de Direitos Humanos de Santa Fé, que finalmente investigou o caso e encontrou pistas de Yves.

Em 5 de maio passado, Eric Domergue teve a confirmação de que um dos corpos era de seu irmão e há duas semanas o juiz de Melincué, Leandro Martín, 34 anos, anunciou oficialmente a identificação do casal.

Yves Domergue, nascido em 1954 na França, era o mais velho de nove filhos e se instalou de 1959 a 1974 na Argentina.

Estudante de engenharia, Yves Domergue militou no Partido Revolucionário dos Trabalhadores (PRT), braço político de uma das organizações guerrilheiras dos anos 1970.

Habitualmente, viajava a Rosário (310 km ao norte), onde conheceu Cristina, nascida no México em 1956, mas que morava ali com sua mãe argentina.

De Rosário, Yves enviou a última carta a Eric, em meados de setembro de 1976.

"Estávamos na ditadura. Para ter cuidado, ele podia me localizar, mas eu não podia localizá-lo, e tínhamos um sistema de encontros. Yves ia embora alguns dias, mas sempre voltava, até que um dia não voltou mais", lembra o irmão.

Durante dois meses, Eric foi diversas vezes aos locais habituais de encontro, esperou em vão até que, diante do inevitável, denunciou o desaparecimento do irmão e partiu a um exílio forçado do qual voltaria em 1983.

Seu pai, Jean, 80 anos, fez denúncias internacionais e formou a associação de familiares de franceses desaparecidos.

Yves e Cristina foram sequestrados em Rosário, mas nunca se teve conhecimento do paradeiro deles, nem testemunhos de sobreviventes que os tivessem visto em centros de tortura e morte.

"Era como se Yves tivesse sido tragado pela terra", dizia Eric antes de que um inesperado fio condutor o levasse a Melincué.

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