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18/08/2010 - 18h30

Jornal venezuelano deixa espaços em branco para protestar contra censura

CARACAS, 18 Ago 2010 (AFP) -O jornal venezuelano El Nacional acatou a decisão de um tribunal de não publicar informações ou fotos sobre episódios de violência, e optou por deixar um espaço em branco em sua edição desta quarta-feira, preenchidos apenas pela palavra "censurado" em letras vermelhas.

"Estamos censurados. Isso é inconstitucional e atenta contra a liberdade de expressão", protestou Miguel Henrique Otero, editor de El Nacional em uma entrevista a uma rádio na manhã desta quarta.

A decisão do tribunal 12 de Caracas, emitida na véspera, proíbe ao jornal "a publicação de imagens, informações e publicidade de qualquer tipo de conteúdo com sangue, armas, mensagens de terror, agressões físicas que aticem conteúdos de guerra e mensagens sobre mortes e assassinatos".

A decisão aconteceu pouco dias depois de El Nacional, duro crítico do governo, ter colocado em sua primeira página uma polêmica foto que mostrava inúmeros corpos no necrotério de Caracas.

"Se aqui houvesse uma foto, vocês veriam um pai chorando por um filho que morreu", afirma a legenda de um dos espaços em branco publicados na edição de hoje.

Outra sentença do mesmo tribunal estende a proibição a todos os meios impressos do país de publicar por um mês "imagens violentas, sangrentas, grotescas, acontecidos ou não, que de uma forma ou outra vulnerem a integridade psíquica e moral das crianças".

"Promovem a censura na imprensa", afirmou na manchete o jornal Tal Cual, que também publicou nesta semana na primeira página a polêmica foto do necrotério de Caracas.

Segundo Eleazar Díaz, diretor do popular Ultimas Noticias, a sentença é "absurda e sem sentido" e representa um "mecanismo de autocensura". "O Estado venezuelano dá motivos aos que o acusam de restringir a liberdade de informar", acrescenta em editorial.

Em Caracas, há 50 mortes violentas a cada final de semana e em todo o país os assassinatos foram mais de 16.000 em 2009, segundo cifras extraoficiais que tornam a Venezuela no país mais violento da região.

O tema está no centro do debate político nos últimos dias, ante as cruciais eleições legislativas de 26 de setembro, nas quais o governo aspira manter pelo menos dois terços da maioria.

Segundo a sentença, a imprensa escrita "deve abster-se de realizar publicações de imagens violentas, sangrentas, grotescas, que de uma forma ou de outro vulnerem a integridade psíquica e moral das crianças".

A Defensoria do Povo e o Conselho de Direitos da Criança anunciaram igualmente que abririam ações judiciais contra El Nacional.

"Uma pessoa só pode comover-se quando pensa nas consequências que pode ter na infância, exposta a estas situações", declarou a presidente do Conselho, Litsbell Díaz.

Chávez também se referiu à fotografia do necrotério e às críticas pela crescente insegurança na Venezuela, ao afirmar que "há uma manipulação politiqueira e pornográfica do tema da violência e da criminalidade".

"Este tema da violência, do crime, converteu-se num fator antirrevolucionário de peso", acusou Chávez, insistindo em que o "problema da segurança é um assunto mundial".

Há alguns dias, o presidente também criticou a transmissão no canal CNN do documentário "Os guardiões de Chávez", realizado por uma tv espanhola, que falava da violência em Caracas e a suposta presença de guerrilheiros colombianos na Venezuela.

Não é a primeira vez que Chávez enfrenta a imprensa. Em 2007, a popular emissora de tv RCTV saiu do ar porque o governo não renovou sua concessão e, há um ano, trinta emissoras de rádios foram fechadas pela mesma razão.

Da mesma forma, a justiça iniciou recursos administrativos contra o canal de notícias Globovisión, que Chávez chama de "terrorista midiático", e ameaçou fechá-lo em várias oportunidades.

"Mas nunca vimos uma atitude como esta", comentou o professor de Comunicação da Universidade Católica Andrés Bello, Marcelino Bisbal.

"Chama a atenção que a proibição dos conteúdos que tenham a ver com a violência e a insegurança tenha sido ditada por um mês. A coincidência: estamos em campanha eleitoral", enfatizou.

"A decisão judicial peca em amplitude e imprecisão", enfatizou, por sua vez, a organização de defesa da liberdade de imprensa, Repórteres sem Fronteiras.

O governo de Chávez não publica cifras da violência há anos e é a imprensa que todas as semanas divulga estatísticas baseando-se no número de corpos que chegam aos necrotérios do país.

O editor do jornal Nacional, Miguel Henrique Otero, disse que a intenção da polêmica era a de "causar um choque para que as pessoas reajam ante a violência".

"Sua publicação chamou a atenção da sociedade, de uma maneira gráfica e oportuna, sobre uma realidade que se tornou cotidiana", considerou David Natera, presidente do Bloco da Imprensa Venezuelana, que agrupa os donos de jornais e revistas.

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