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Europa sob pressão após tragédia com imigrantes no Mediterrâneo

22/04/2015 19h44

Roma, 22 Abr 2015 (AFP) - Os governos europeus se reunirão nesta quinta-feira em uma cúpula extraordinária em Bruxelas para avaliar a possibilidade de uma operação militar contra traficantes de seres humanos, enquanto começam a ser divulgados os detalhes angustiantes do naufrágio no Mediterrâneo em que teriam morrido mais de 800 pessoas.

Segundo um projeto de declaração que a AFP consultou nesta quarta-feira, os países poderiam lançar uma operação para "identificar, capturar e destruir os barcos antes de serem utilizados pelos traficantes".

A comoção provocada pela morte de cerca de 800 pessoas em frente à costa líbia, no fim de semana, dominará a cúpula extraordinária da União Europeia (UE) nesta quinta-feira, na qual serão abordadas as diferentes propostas, inclusive uma do governo italiano de realizar "intervenções específicas" contra os traficantes de pessoas na Líbia.

Da Líbia, um país mergulhado no caos desde a queda, em 2011, de Muamar Kadhafi, com dois governos que disputam o poder, embarcam muitos migrantes, inclusive deslocados por conflitos armados que buscam asilo na Europa.

"Não se pode ser sério (com relação a este problema), sem levar em conta a demanda" da Itália, afirmou um alto funcionário europeu.

Se a proposta for aceita, a organização desta operação militar europeia seria uma primícia na luta contra a migração clandestina.

No entanto, uma operação deste tipo para para destruir embarcações na Líbia, precisaria de um mandato jurídico das Nações Unidas, lembrou outro funcionários europeu.

"Ninguém fala de mandar tropas ao terreno", explicou a fonte, destacando que o projeto seria lançar operações pontuais.



"Trancados no porão"

Nesta terça-feira, os 28 sobreviventes chegaram à Sicília, entre eles dois membros da tripulação, que foram presos. As autoridades só conseguiram resgatar 24 corpos.

Sabe-se agora que a maioria dos que viajavam no navio estavam trancados no porão no momento em que a embarcação colidiu com um cargueiro português que tinha ido socorrê-lo.

Um adolescente bengalês que sobreviveu explicou que havia três tipos de passageiros a bordo.

"Os que tinham menos dinheiro estavam trancados no porão", disse o rapaz, identificado pelo nome de batismo, Abdirizak, ao jornal Corriere della Sera. "Nós estávamos no nível médio, e só os que pagaram mais estavam em cima" na parte superior do navio, acrescentou.

Quando houve a primeira colisão, em plena escuridão, houve cenas de terror. "Todo mundo gritava, empurrava, batia, em um ambiente assustador. Podíamos ouvir os que estavam trancados no porão gritar: 'socorro, socorro!'", contou.

"Não sei como, mas conseguimos começar a nadar bem na hora em que o barco naufragava", a 110 km da costa líbia, relatou o adolescente.

Segundo o testemunho de outro bengalês, de 17 anos, ao jornal britânico The Daily Telegraph, a maioria dos migrantes era de "africanos e não sabia nadar".

Os migrantes tinham pago entre 330 e 660 euros para viajar, segundo a promotoria de Catânia.



"Escravos do século XXI"

Nesta quarta-feira, a Itália pediu a seus parceiros da União Europeia que combatam juntos os traficantes de seres humanos no Mediterrâneo, verdadeiros "comerciantes de escravos do século XXI".

O presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, expressou sua indignação com este novo drama, que se soma à tragédia dos 450 desaparecidos na semana passada, e acusou a Europa de "dejar morrer os imigrantes".

Mas os especialistas são cautelosos: "é preciso atacar a causa do problema e não a sua consequência. Os que estão determinados a vir (para a Europa) sempre encontrarão os meios (...)", avaliou Kader Abderrahim, investigador do Instituto de Pesquisas Internacionais e estratégicas (IRIS), de Paris.

Para a Organização Internacional para as Migrações (OIM), a solução passa por começar a tramitar as demandas de refúgio nos países de trânsito, um enfoque que a UE teme que possa gerar um "efeito manada".

Mais de 1.750 migrantes perderam a vida no Mediterrâneo este ano, 30 vezes mais do que no mesmo período de 2014, destacou nesta terça-feira a OIM, em Genebra.