Catalunha rumo a novas eleições ante divisão dos separatistas

Barcelona, 5 Jan 2016 (AFP) - O presidente em fim de mandato da Catalunha, Artur Mas, mostrou-se disposto nesta terça-feira a assumir o risco de enfrentar novas eleições regionais, perigosas para os separatistas, invés de renunciar à reeleição, como queriam os separatistas mais radicais.

"Estou pronto a contragosto porque não é o que queríamos, nem é o que quero, para assinar na segunda-feira o decreto de convocação das eleições", advertiu Artur Mas em coletiva de imprensa em Barcelona.

A figura de Mas, presidente regional desde 2010 e convertido ao separatismo dois anos depois, se tornou o principal obstáculo para que os independentistas possam formar um governo que obtenha a maioria absoluta do Parlamento regional nas eleições de 27 de setembro.

O líder conservador tinha antecipado para esta data as eleições previstas para 2016 com a intenção de transformá-las em um referendo pela independência que Madri repudia sistematicamente desde 2012.

Para isso, formou uma coalizão do seu partido liberal, CDC, com a esquerdista ERC e outras associações independentistas com o único objetivo de obter a maioria absoluta e aplicar um plano para declarar em 2017 uma república independente nesta rica região do nordeste espanhol, com 7,5 milhões de habitantes.

Os separatistas venceram, mas a vitória foi apertada: ficaram abaixo dos 50% dos votos e a coalizão Junts pel Sí (Juntos pelo Sim) elegeu 62 deputados, obrigada a uma aliança antinatural com a esquerda radical separatista CUP (10 cadeiras) para avançar para a secessão.

Juntos aprovaram em novembro uma resolução parlamentar lançando um processo de separação e declarando-se insubmissos às instituições espanholas, mas não conseguiram formar um governo ante a ferrenha oposição da CUP a empossar Artur Mas, a quem consideram um símbolo da corrupção e da austeridade.

As negociações se prolongaram por três meses e, no domingo, fracassaram definitivamente: embora muito dividida, a CUP manteve o veto ao líder conservador.

"Penso que o erro da CUP em sua decisão do domingo é de proporções gigantescas", criticou Mas, advertindo que não pensa em ceder.

Desgaste separatistaEm sua própria coalizão, outras vozes pediram que se continue buscando o acordo. "Temos que encontrar uma saída para esta questão", disse o deputado do Junts pel Sí, Raul Romeva. "Pedimos a todos que, apesar das dificuldades, se sentem e continuem negociando", concordou o presidente da ERC, Oriol Junqueras.

Se nada mudar, no domingo será dissolvido o primeiro Parlamento com a maioria separatista na Catalunha e na segunda-feira serão convocadas para o começo de março as quartas eleições regionais desde 2010, com perspectivas sombrias para os separatistas.

"Três meses de maioria separatista no Parlamento não se transformou em um acordo de governo. Isto causa um desgaste importante para as formações independentistas", destacou Ferran Requejo, catedrático de ciências políticas da Universidade Pompeu Fabra de Barcelona.

A dificuldade ainda é maior no caso de Mas, que dificilmente poderá reeditar sua coalizão com a ERC e lidera um partido em pleno declínio por um megaescândalo de corrupção em torno de seu fundador e presidente regional durante 23 anos, Jordi Pujol.

De fato, nas eleições legislativas espanholas de dezembro, sua formação foi superada pela ERC e pela esquerda radical do Podemos que, aliados à carismática prefeita de Barcelona Ada Colau, foram a força mais votada nesta região.

A imprensa espanhola estava cheia de especulações sobre uma grande aliança de esquerdas favoráveis à independência ou a um referendo liderado por Colau que, nesta terça-feira, deixou aberta sua possível candidatura a eleições regionais.

Em Madri, o chefe de governo espanhol em fim de mandato, o conservador Mariano Rajoy, também imerso em árduas negociações para formar o governo após sua apertada vitória eleitoral, comemorou a repetição das eleições na região.

"O melhor seria que o senhor Mas deixasse suas proposições independentistas. Mas como isto não vai ser possível, o melhor seria que se celebrassem eleições", disse em entrevista por rádio nesta terça.

"Mas será difícil ver um resultado completamente diferente ao de setembro", afirmou o professor de ciência política da Universidade Carlos III de Madri, Lluis Orriols.

"Para o separatismo, estamos diante de um golpe duro, mas não mortal. Os partidos independentistas continuarão presentes, com força", advertiu.

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