Ramos Allup, o aguerrido antichavista à frente do Parlamento

Caracas, 5 Jan 2016 (AFP) - Quando a primeira semente do chavismo foi plantada na Venezuela, Henry Ramos Allup, o político mais experiente da oposição, já se apresentava como um de seus mais ferrenhos adversários.

"Fique tranquilo, que aqui as coisas mudaram", sentenciou, nesta terça-feira, falando da tribuna do Parlamento, ao se dirigir a um deputado chavista que o interrompia enquanto dirigia sua primeira sessão como presidente da nova Assembleia Nacional, de maioria opositora.

Ramos Allup é secretário-geral da Ação Democrática (AD), o mais poderoso partido da história republicana da Venezuela, antes da chegada do falecido líder Hugo Chávez ao poder, em 1999.

Quando o tenente-coronel Chávez liderou, em fevereiro de 1992, o levante militar contra o então presidente Carlos Andrés Pérez, o congressista tomou a palavra para condenar "atos tão depreciáveis".

Aos olhos do governo, este advogado de 72 anos encarna as "cúpulas apodrecidas", as quais o líder socialista - morto em março de 2013 - prometeu combater quando ganhou a disputa pela Presidência em 1998. Para seus correligionários, Allup é o homem que põe o dedo na ferida na complexa realidade venezuelana.

Depois do assassinato de um líder regional da AD antes das eleições legislativas de 6 de dezembro, ele acusou simpatizantes do governo de homicídio. O governo anunciou que iria processá-lo por "difamação".

"Estou me borrando de medo!" - respondeu com sarcasmo o deputado e um dos líderes da opositora Mesa da Unidade Democrática (MUD).

'Nasci aqui e aqui vão me enterrar'Ramos foi parlamentar entre 1992 e 2005 e, depois, entre 2010 e 2015. Estimulada por ele, a oposição não participou das eleições de 2005, alegando desconfiança em relação ao organismo eleitoral. A Assembleia ficou, então, sob controle total do chavismo.

Ele chegou a chamar o líder da "revolução bolivariana", a quem atribuía "severos desequilíbrios mentais", de "malandro (delinquente) de Miraflores".

Ramos também descarregou sua metralhadora verbal contra Nicolás Maduro, o herdeiro político de Chávez. Para ele, o governo Maduro está "mal das pernas, frágil, anêmico", depois das eleições legislativas que puseram fim à hegemonia chavista.

No calor dos protestos contra o governo, que deixaram 43 mortos em 2014, Maduro convocou um diálogo nacional, em rede nacional de rádio e televisão. As lideranças máximas do governo, entre elas o então presidente da Assembleia e número dois do chavismo, Diosdado Cabello, chegaram a participar desse movimento.

Cabello tentou interromper a crítica intervenção de Ramos Allup, que havia anunciado que não jogaria fora a oportunidade inédita de confrontar o governo.

"Não fique bravo, Diosdado. Olha, não estou na Assembleia, não sou seu subalterno!", afirmou, sereno, enquanto revisava sua caderneta de anotações.

Ao final daquela intervenção, aproveitou para falar diretamente com Maduro: "Nasci aqui e aqui vão me enterrar. O sucesso disso que estamos fazendo (o diálogo)... A verdade é que depende muito pouco de nós. Depende de você, que é o chefe de Estado".

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