Coreia do Norte anuncia primeiro teste com bomba de hidrogênio

Seul, 6 Jan 2016 (AFP) - A Coreia do Norte anunciou nesta quarta-feira ter realizado com sucesso o primeiro teste com uma bomba de hidrogênio, muito mais potente que a atômica, uma demonstração de que o regime prossegue com o programa nuclear apesar da proibição da comunidade internacional.

O anúncio foi recebido com grande ceticismo por especialistas, ao mesmo tempo em que provocou várias condenações imediatas ao redor do mundo.

O Conselho de Segurança da ONU anunciou que realizará uma reunião de emergência nesta quarta-feira em Nova York.

Países vizinhos, como Coreia do Sul e Japão, assim como França e Reino Unido condenaram o teste. A Casa Branca prometeu uma reação apropriada às "provocações" norte-coreanas. A China, principal aliada da Coreia do Norte, também expressou "firme oposição" ao teste.

O diretor da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), Yukiya Amano, declarou que, se confirmado, o teste representará uma violação evidente das resoluções da ONU e um ato profundamente lamentável.

A Otan considerou, por sua vez, que o teste "mina a segurança regional e internacional" e que a "Coreia do Norte deveria abandonar suas armas nucleares, assim como os atuais programas de armas nucleares e mísseis balísticos de maneira completa, verificável e irreversível, além de comprometer-se de maneira confiável e autêntica com um diálogo para a desnuclearização".

Em meio ao clima de apreensão, o ministério japonês da Defesa mobilizou aviões de treinamento T4 para detectar possíveis partículas radioativas. "As mostras estão a caminho do centro de análises químicas do Japão", indicou o porta-voz do governo, Yoshihide Suga.

Nas regiões chinesas mais próximas ao centro de testes nucleares da Coreia do Norte, vários edifícios foram evacuados depois que os moradores "sentiram claramente os abalos", informou a imprensa estatal.

O anúncio do teste de uma bomba H foi uma surpresa. Pyongyang afirmou que ele foi ordenado pessoalmente pelo dirigente norte-coreano, Kim Jong-un, dois dias antes de seu aniversário.

"O primeiro teste com bomba de hidrogênio da República foi realizado com sucesso às 10H00 (23H30 Brasília)", anunciou a TV estatal norte-coreana.

"Após o pleno sucesso da nossa bomba H histórica, nos juntamos ao grupo dos Estados nucleares avançados", disse o apresentador da TV estatal, antes de explicar que o teste envolveu um dispositivo em "miniatura".

Uma bomba de hidrogênio, ou termonuclear, utiliza a técnica da fusão nuclear e produz uma explosão muito mais potente que uma deflagração por fissão, gerada apenas por urânio ou plutônio.

Pyongyang testou em três oportunidades a bomba atômica A, que utiliza a fissão nuclear, em 2006, 2009 e 2013. Os testes resultaram em várias sanções internacionais.

Kim Jong-Un deu a entender no mês passado que seu país havia concluído a montagem de uma bomba de hidrogênio, uma declaração que provocou muitas dúvidas entre os especialistas internacionais.

Ceticismo dos especialistasO ceticismo não foi menor nesta quarta-feira.

"Os dados sismológicos sugerem que a explosão foi consideravelmente menos forte do que se esperaria de um teste de bomba H", afirmou o especialista australiano em política nuclear Crispin Rovere.

"À primeira vista, parece que executaram um teste nuclear com êxito, mas não conseguiram realizar a segunda etapa, a da explosão de hidrogênio", completou.

"Se realmente fosse uma bomba H, os níveis na escala Richter (do tremor) teriam sido várias vezes mais potentes, até chegar a sete ou mais", disse Bruce Bennett, analista e especialista em defesa da Rand Corporation, que no entanto advertiu para o perigo de radiação na área próxima às instalações nucleares.

As primeiras suspeitas sobre um novo teste norte-coreano foram formuladas por sismólogos que detectaram um tremor de 5,1 graus de magnitude perto da principal zona de testes nucleares da Coreia do Norte, no nordeste do país.

A organização responsável pela aplicação do Tratado de Proibição Completa de Testes Nucleares, com sede em Viena, afirmou ter detectado uma atividade sísmica "incomum" na Coreia do Norte.

Muitos especialistas consideravam que Pyongyang precisava de muitos anos para desenvolver uma bomba termonuclear, mas se mostravam divididos sobre as capacidades do país de miniaturizar a arma atômica, etapa decisiva na produção de ogivas nucleares.

Uma bomba H ou não, o quarto teste nuclear norte-coreano constitui uma afronta flagrante aos inimigos e aliados do regime norte-coreano, que haviam advertido o país sobre a continuidade do programa nuclear.

O fato das sanções internacionais não terem sido suficientes para impedir a Coreia do Norte de seguir adiante e executar um novo teste deve provocar pedidos por reações mais duras.

O presidente americano Barack Obama classificou em 2014 a Coreia do Norte de "Estado pária" e prometeu sanções mais duras em caso de novo teste.

Pequim deseja a retomada das negociações entre seis partes (Coreia do Norte, Coreia do Sul, China, Estados Unidos, Rússia e Japão) sobre o programa nuclear norte-coreano, paralisadas desde 2008.

Os analistas consideram que Pyongyang tem atualmente plutônio suficiente para fabricar até seis bombas. A comunidade internacional não sabe se o regime norte-coreano utilizou urânio ou plutônio no teste de 2013.

Críticas da comunidade internacionalAs condenações nesta quarta-feira foram imediatas.

A Coreia do Sul condenou o teste e prometeu "adotar todas as medidas necessárias" para que Pyongyang "pague".

"Condenamos com força o quarto teste nuclear norte-coreano, que é uma clara violação das resoluções do Conselho de Segurança da ONU, apesar de repetidas advertências por nossa parte e da comunidade internacional", afirma Seul em uma nota oficial.

"Tomaremos todas as medidas necessárias, incluindo sanções adicionais do Conselho de Segurança da ONU para que o Norte pague por este teste nuclear", completou o governo sul-coreano.

Washington, que destacou não ter condições de confirmar até o momento o teste com uma bomba de hidrogênio pela Coreia do Norte, prometeu uma resposta apropriada a qualquer "provocação" de Pyongyang.

"Sabemos da atividade sísmica na península coreana nas proximidades de uma conhecida instalação de testes nucleares da Coreia do Norte e ouvimos as afirmações de um teste nuclear", disse o porta-voz do Conselho Nacional de Segurança da Casa Branca, Ned Price.

"Estamos monitorando e continuamos avaliando a situação em estreita coordenação com nossos sócios regionais", completou.

"Enquanto não podemos confirmar no momento as afirmações, condenamos qualquer violação das resoluções do Conselho de Segurança da ONU e pedimos à Coreia do Norte que respeite suas obrigações e compromissos internacionais", disse Price.

A China, principal aliado da Coreia do Norte, condenou o teste nuclear, realizado "apesar da oposição da comunidade internacional".

Pequim apelou a Pyongyang para que "cumpra o seu compromisso de desnuclearização e a abster-se de qualquer ação que agrave a situação", em uma declaração da porta-voz do ministério das Relações Exteriores, Hua Chunying.

O primeiro-ministro japonês, Shinzo Abe, chamou o teste norte-coreano de "grave desafio" aos esforços mundiais de não proliferação nuclear e "séria ameaça" ao Japão.

O governo da França também condenou o teste, que considerou uma "violação inaceitável das resoluções do Conselho de Segurança da ONU" , e pediu uma reação forte da comunidade internacional.

O ministro das Relações Exteriores do Reino Unido, Philip Hammond, chamou de provocação e violação grave das resoluções da ONU o anúncio norte-coreano.

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