Irmã e cunhado do rei da Espanha são julgados por corrupção

Palma, Espanha, 11 Jan 2016 (AFP) - O julgamento de Cristina de Bourbon, irmã do rei Felipe VI e filha de Juan Carlos I, acusada em um dos maiores escândalos de corrupção da Espanha, começou na manhã desta segunda-feira, mas sua defesa logo solicitou que a infanta não seja processada.

Em uma sala com o retrato de seu irmão mais novo, Felipe VI, chefe de Estado desde a abdicação de seu pai em junho de 2014, Cristina Federica Victoria Antonia da Santíssima Trindade de Bourbon e Grécia, de 50 anos, presenciou junto com outros 17 acusados a abertura do "julgamento do ano", com a leitura das acusações às 9h20 locais (6h20, de Brasília), em Palma de Maiorca, capital das ilhas Baleares.

De calça, jaqueta preta e lenço vermelho e branco, Cristina chegou uma hora antes acompanhada de seu marido, Iñaki Urdangarin, principal acusado no caso. Com o semblante sério, os dois entraram sem falar com as dezenas de jornalistas de todo o mundo que os esperavam na entrada do tribunal.

"Bourbons aos tubarões!", "Espanha, amanhã será ñana, será republicana!", gritavam manifestantes na porta do Palácio da Justiça.

"Este é mais um caso de corrupção dos muitos que estamos vendo" nos últimos anos, disse à AFP Francisco Solana, um desempregado de 45 anos que protestava em frente à corte com uma bandeira republicana sobre os ombros.

"Não vai ter nenhum juiz corajoso neste país que vá enviar a infanta Cristina para a cadeia. Em outros lugares da Europa, acredito que a infanta Cristina já estaria na prisão", declarou, ilustrando a indignação de milhões de espanhóis.

A segunda filha de Juan Carlos é acusada de dois crimes fiscais relacionados ao suposto desvio de 6 milhões de euros de dinheiro público por seu marido, Iñaki Urdangarin, e um ex-sócio dele, Diego Torres.

Urdangarin e Torres são suspeitos de prevaricação, desvio, fraude, crime fiscal, tráfico de influência, falsificação e lavagem de dinheiro. O promotor pede para eles 19,5 anos e 16,5 anos de prisão, respectivamente.

A irmã do rei enfrenta um pedido de pena de 8 anos, mas apenas por parte de uma acusação popular - a associação ultradireitista Mãos Limpas - já que nem a promotoria, nem a Fazenda Pública atuaram contra ela.

Esta é a base de sua esperança para escapar do julgamento.

Uma hora depois da abertura do processo sua defesa afirmou, citando jurisprudências precedentes, que a infanta não pode ser julgada, se for acusada apenas pela ação popular, uma figura específica do Direito espanhol.

"Pelo fato de ser apoiada em uma doutrina consolidada do Tribunal Supremo, ratificada pelo Tribunal Constitucional (...) respeitosamente solicitamos (...) a nulidade do auto de abertura de julgamento oral relacionado à responsabilidade de Cristina de Bourbon", afirmou Jesús María Silva, um de seus advogados.

A infanta sempre se defendeu, dizendo desconhecer os esquemas de corrupção e confiar plenamente em seu marido, de quem rejeitou se divorciar, apesar da pressão de uma Casa Real determinada a limitar os danos à monarquia.

"Todos os cidadãos são iguais perante a lei e, portanto, não podem ser aplicadas doutrinas anacrônicas à infanta Cristina, beneficiando-a de um privilégio", declarou aos jornalistas a advogada da Mãos Limpas, Virginia López Negrete.

O ex-sócio, Diego Torres, um dos principais acusados no mega processo por corrupção, afirmou no domingo que a Casa Real sabia dos negócios de Iñaki Urdangarin.

"A Casa Real estava informada, sabia, supervisionava-o e, ocasionalmente, até colaborava", afirmou Torres, em entrevista divulgada no domingo à noite pelo canal de televisão La Sexta.

Hoje, o advogado de Torres voltou a pedir que Juan Carlos e Felipe VI compareçam como testemunhas, o que já havia sido negado pela Justiça.

Durante o processo, Urdangarin se esforçou para desvincular a princesa Cristina, o rei Juan Carlos e a Casa Real de todos os seus negócios.

Torres garante, contudo, que pessoas vinculadas ao antigo monarca atuavam nas atividades do Instituto Nóos, entidade sem fins lucrativos que aparece no centro deste caso, e indicaram-no, assim como Urdangarin, como gestores.

"Tenho 300 e-mails relacionados à Casa Real. Alguns são do rei, efetivamente, outros são de outras pessoas", disse, dando a entender que poderia divulgar informações comprometedoras durante o julgamento.

Brigado com Urdangarin por causa do escândalo, Torres assegurou que não fala com o ex-sócio há oito anos, apenas com seu advogado.

"Pediu-me que assumisse a maior parcela de responsabilidade em troca de dinheiro e de um cargo de trabalho", contou.

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