Plano Colômbia: povoados fantasmas da coca lutam para sobreviver

La Hormiga, Colômbia, 2 Fev 2016 (AFP) - Depois de ver suas plantações de coca virarem cinzas, Ángel Bolívar agora colhe pimenta em Putumayo, mas a erradicação promovida pelo Plano Colômbia nos últimos 15 anos também deixou povoados fantasmas nas zonas produtoras de coca do país.

"Quando chegamos, havia de tudo: cultivos de alimentos e de coca, mas não tínhamos alternativa. Os de coca eram mais rentáveis", disse à AFP este camponês de 54 anos.

Por anos, deixar o cultivo da coca era uma "humilhação", contou Serafín Guzmán, de 39, dono de uma fazenda de cacau. Os aviões militares não diferenciavam as plantações: passavam, pulverizavam e deixavam tudo seco. "Estragaram o cacau e a agricultura, o que eu tinha. Três, quatro hectares", disse Guzmán.

As pulverizações aéreas com glifosato foram suspensas em maio do ano passado pelos efeitos nocivos para a saúde e para o meio ambiente. Desde então, combate-se apenas o plantio de coca de forma manual.

Na Colômbia, principal produtor mundial de coca, foram pulverizados em 15 anos dois milhões de hectares de cultivos ilegais e destruídos cerca de 100 mil.

As autoridades comemoram a diminuição de 60%, mas estão preocupadas com a retomada dos últimos anos. Em dezembro de 2012, havia quase 48.000 hectares de folha de coca e, no final de 2014, passavam de 69.000, segundo a ONU.

'Como um carnaval no Rio'"Era como um carnaval no Rio de Janeiro", relatou a camponesa Nuri Caleño, de 43 anos, de Tuparro, no departamento de Vichada (leste), que faz fronteira com Venezuela.

Ela lembra "a vida alegre", o dinheiro, as joias, as roupas.

Como outros povoados produtores de coca, Tuparro cresceu com a ideia de que ali havia trabalho. Os grupos armados que operavam na zona juntaram as colheitas e desapareceram. Hoje, os moradores esperam que o Estado se lembre deles.

'Sucesso relativo'Apostando no fim do conflito armado de meio século com as guerrilhas das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) e do Exército de Libertação Nacional (ELN) para impulsionar o desenvolvimento econômico, o governo reconhece que a falta de infraestrutura dificulta a substituição dos cultivos.

Em 15 anos, a Colômbia recebeu mais de 9,6 bilhões de dólares em fundos americanos e investiu cerca de 120 bilhões de dólares no programa.

O próprio presidente Juan Manuel Santos admitiu, na semana passada, que a falta de estradas torna "muito difícil" ajudar os camponeses que abandonam o plantio de coca.

"O esforço tem sido enorme, o sucesso, relativo", afirmou Santos, referindo-se ao Plano Colômbia em um fórum sobre a luta antidrogas.

"Não é possível substituir um cultivo em uma zona onde não há estrada, porque, neste caso, como adquirir os produtos?", alega o diretor do Plano Nacional de Substituição de Cultivos, Eduardo Díaz.

"O que a coca deixou? Nada. Desolação, pobreza... Não podemos dizer que alguém esteja rico. Não, aqui, todos sobrevivem", acrescentou a camponesa Nuri Caleño.

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