Destruição da 'selva' de Calais prossegue; migrantes bloqueados na fronteira

Calais, França, 1 Mar 2016 (AFP) - O desmantelamento de uma parte do acampamento francês de Calais, onde vivem milhares de migrantes à espera de entrar na Inglaterra, foi retomado nesta terça-feira após confrontos no dia anterior e em um contexto de restrições impostas por vários países europeus, bloqueando milhares de refugiados nas fronteiras.

Esta crise migratória, a mais grave na Europa desde o fim da Segunda Guerra Mundial, preocupa até mesmo os Estados Unidos, pressionado a liderar a busca por uma solução internacional à crise de refugiados sírios que, segundo especialistas, pode colapsar os países do Oriente Médio e da União Europeia.

A demolição parcial da "selva" de Calais (norte da França), local onde se encontram principalmente sírios, afegãos e sudaneses, prossegue nesta terça sob a estreita vigilância de um grande dispositivo de segurança.

Os imigrantes resistiam a abandonar o local e seguir para os diversos centros de acolhida, distribuídos por todo o país.

"Devem pegar suas coisas e partir. A polícia vai agir", explicou um funcionário a um grupo de sudaneses, que parecia pouco motivado com a ameaça.

"Já fomos presos e torturados, não temos medo", disse um dos sudaneses.

O acampamento abriga entre 800 e 1.000 imigrantes, segundo o governo, e 3.450 de acordo com associações.

Na segunda-feira à noite, 150 migrantes, alguns armados com barras de ferro, estiveram durante uma hora na estrada de acesso ao porto de Calais, próxima à "selva". A partir dali lançaram pedras ou atacaram os veículos que se dirigiam à Inglaterra, do outro lado do Canal da Mancha, até serem dispersados pela polícia, que recorreu ao uso de gás lacrimogêneo.

"Levaremos o tempo necessários, três semanas, um mês...", declarou ao canal BFMTV Vincent Berton, um dos representantes do governo no norte da França.

O ministro francês do Interior, Bernard Cazeneuve, denunciou o "ativismo de um punhado de militantes 'No Borders' extremistas e violentos".

Durante visita a Madri, o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, denunciou novamente as restrições impostas aos migrantes nas fronteiras dos Balcãs, que "não estão de acordo com o direito internacional ou a decência humana".

Na quinta-feira passada, o governo francês obteve a autorização da justiça para evacuar a parte sul da "selva" de Calais, onde vivem, segundo a prefeitura, entre 800 e 1.000 migrantes, e 3.500, segundo as associações.

Os migrantes desalojados devem ser reinstalados em centros de acolhida na zona de Calais ou em outras regiões da França.

Cúpula mundial sobre os refugiadosA milhares de quilômetros de Calais, mais de 7.000 migrantes permaneciam bloqueados no posto fronteiriço grego de Idomeni após as restrições impostas por vários países, incluindo a Macedônia, sobre o número de pessoas autorizadas a entrar em seus territórios.

Os migrantes sofrem com o frio e o barro deixado pelas chuvas da noite.

O chanceler macedônio, Nikola Poposki, defendeu nesta terça a decisão das autoridades de lançar gás lacrimogêneo para conter os migrantes na fronteira com a Grécia. Na segunda, a polícia reagiu contra centenas de sírios e iraquianos que tentavam forçar a cerca no posto de Idomeni.

Segundo o ministro macedônio, "o grande problema, atualmente, é que o sistema parece não funcionar. Cada um deveria assumir sua parte de responsabilidade em seu território".

A Comissão Europeia expressou preocupação quanto aos recentes incidentes violentos.

Segundo a organização Médicos Sem Fronteiras (MSF), o número atual de migrantes em Idomeni é quatro vezes maior que a capacidade dos dois acampamentos instalados perto do posto de fronteira.

Alguns grupos preferem esperar perto da passagem, na esperança de serem os próximos a atravessar a fronteira, dormindo a três dias ao relento. Este é o caso de Fayssal, um sírio de 30 anos que teve as duas pernas amputadas em um bombardeio em Damasco.

A Macedônia é o primeiro país na rota dos Bálcãs, utilizada por migrantes que chegam nas ilhas gregas a partir da costa turca e que desejam chegar aos países da Europa do Norte e Central.

O presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk, inicia nesta terça-feira em Viena um giro pelos países dos Balcãs. Ele também visitará na quinta e sexta-feira a Turquia, antes de uma cúpula europeia convocada para 7 de março em Bruxelas.

Os Estados Unidos olham para o êxodo de refugiados do Oriente Médio rumo à Europa como um "desafio global", declarou na segunda-feira o secretário americano de Estado, John Kerry, assegurando ao seu contraparte alemão o apoio de Washington.

"Os Estados Unidos consideram a crise dos refugiados global. O impacto obviamente foi sentido primeiro pela Jordânia, pelo Líbano e pela Turquia. Eles têm carregado um fardo incrivelmente pesado ao curso destes mais de quatro anos de guerra", declarou.

E o ex-embaixador americano no Iraque e na Síria, Ryan Crocker, exigiu do governo a organização de "uma cúpula mundial sobre os refugiados", porque "nem a região (o Oriente Médio), nem a Europa podem superar" a crise.

Depois da Áustria, o primeiro país a adotar um sistema de cotas, a Croácia e a Eslovênia, membros da UE, bem como a Macedônia e a Sérvia, decidiram na semana passada limitar o número de migrantes admitidos no seu território, provocando protestos em Atenas.

A Grécia estima que entre 50.000 e 70.000 pessoas correm o risco de permanecerem bloqueadas no país em março, contra 22.000 atualmente.

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