TPI acusa chefe islamita por crimes de guerra na destruição de Tombuctu

Haia, 1 Mar 2016 (AFP) - A procuradora do Tribunal Penal Internacional (TPI) acusou nesta terça-feira um chefe tuaregue do Mali por crimes de guerra pela destruição de vários mausoléus da histórica cidade de Tombuctu em 2012.

Ahmad Al Faqi Al Mahdi, um dos líderes do Ansar Dine, um grupo islamita radical malinês associado à Al-Qaeda no Magreb Islâmico (AQMI), dirigia a brigada de costumes ("Hesbah") da cidade quando ela estava nas mãos dos jihadistas.

É acusado de ter dirigido pessoalmente os ataques em 2012 contra dez edifícios religiosos do centro histórico em Tombuctu, incluído na lista de patrimônio mundial da humanidade.

As destruições são "um ataque contra toda uma população e contra sua identidade cultural", declarou em Haia a procuradora Fatou Bensouda durante a chamada "audiência de confirmação de acusações", que serve para decidir se há provas suficientes para iniciar um julgamento.

O advogado de defesa do acusado chamou seu cliente de um "homem inteligente e razoável, um intelectual instruído e preocupado com o bem coletivo".

"Não se trata de atacar os mausoléus, mas de (...) libertá-los de elementos construídos sobre eles", acrescentou Jean-Louis Glissen.

Al Faqi é o primeiro jihadista detido pelo TPI, o primeiro detido no âmbito da investigação sobre a violência de 2012 e 2013 no Mali e o primeiro acusado pelo tribunal por destruir edifícios religiosos e monumentos históricos.

Durante a audiência, Faqi, vestido com uma camisa branca, ouviu as acusações da procuradora. "Entendi bem as acusações", afirmou em árabe ao juiz que presidia a sessão, Joyce Aluoch.

"É a primeira vez em que a destruição de monumentos históricos e religiosos é central na acusação", afirmou a ONG Open Society Justice Initiative.

A cidade de Tombuctu, fundada entre os séculos XI e XII por tribos tuaregues, foi um grande centro intelectual e comercial do Islã.

Em 2012, a destruição por parte do Ansar Dine - em nome da luta contra a idolatria - de quatorze mausoléus de santos muçulmanos provocou uma onda de indignação em todo o mundo.

Durante a audiência de confirmação das acusações desta terça, a procuradoria argumentou que o caso contra Al Faqi, de cerca de 40 anos, é suficientemente para julgá-lo. Os juízes terão dois meses para decidir se aceitam as acusações.

Segundo a ordem de detenção contra ele, Al Faqi é responsável por crimes de guerra que destruíram nove mausoléus e uma das principais mesquitas da cidade, a de Sidi Yahia, entre 30 de junho e 10 de julho de 2012.

"A consciência coletiva da humanidade ficou chocada com a destruição. Estes ataques não devem ficar impunes", disse Bensouda.

Em 2013 o TPI abriu uma investigação sobre as ações no Mali dos grupos jihadistas relacionados com a Al-Qaeda, que em março e abril de 2012 tomaram o controle do norte do país após a retirada do exército, perseguido por uma rebelião predominantemente tuaregue.

O jihadistas foram expulsos posteriormente no início de 2013 graças a uma intervenção militar internacional liderada pela França. Mas ainda há zonas inteiras do país que escapam do controle do exército malinês e das forças internacionais.

Após sua destruição, a Unesco restaurou os 14 mausoléus destruídos em Tombuctu, situado a 1.000 quilômetros de Bamaco, a capital do país.

Muitas ONGs também exigem justiça para as vítimas da violência no Mali em 2012 e 2013 e pedem ao TPI que amplie as acusações contra Al Faqi para incluir os estupros e os casamentos forçados, entre outros crimes.

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