Turistas evitam as pirâmides do Egito

Cairo, 3 Mar 2016 (AFP) - Said Ramadan, vendedor de rua aos pés das famosas pirâmides de Gizé, precisa pedir dinheiro emprestado todo o tempo para poder chegar ao fim do mês desde que uma onda de atentados extremistas afugentaram os turistas do Egito.

"Não ganho quase nada desde que não há turistas. Já não tenho dinheiro para comprar roupas para meus filhos", conta Ramadan, de 42 anos, em sua casa de tijolos localizada perto do complexo arqueológico, no oeste do Cairo.

Este vendedor não é o único a se lamentar, já que todos os pontos turísticos egípcios parecem esquecidos, inclusive as localidades costeiras do mar Vermelho que, até os últimos meses, conseguiam atrair os visitantes.

O golpe final ao turismo aconteceu em 31 de outubro, quando um avião foi derrubado na península do Sinai, matando seu 224 passageiros. A organização extremista Estado Islâmico (EI) reivindicou esta tragédia.

"Agora quase não há turistas russos, britânicos e americanos nas pirâmides", lamenta Ramadan.

Desaparecem os ônibus que chegavam abarrotadas ao estacionamento das pirâmides de Quéops, Quéfren e Miquerinos e os hotéis, que em outros tempos expunham cartazes indicando lotação, agora estão quase desertos.

Atualmente, somente famílias egípcias e pequenos grupos de estudantes passeiam pelo complexo arqueológico de aproximadamente 4.600 anos de idade. E, em seus caminhos pedregosos, a maioria deles não se interessa pelos souvenires exibidos pelos vendedores.

Segurança reforçadaNinguém mais quer montar em cavalos ou nas costas de um camelo, o que desespera seus proprietários, acostumados a abordar os turistas estrangeiros em russo, italiano e francês.

"Antes, ganhava facilmente mil libras (aproximadamente 5.600 reais) por dia", recorda Ibrahim, enquanto um casal de egípcios tira fotos ao lado de seu camelo. "Agora, se ganho 100 libras, tenho sorte".

Na entrada do complexo, policiais armados até os dentes montam guarda perto das barricadas e só autorizam a passagem de ônibus turísticos para evitar um eventual ataque extremista.

Dezenas deles também se vestem à paisana para se confundirem com os visitantes, que são submetidos a controles de identidade aleatórios.

No final de janeiro, cinco policiais e dois civis morreram durante a explosão de uma bomba em uma incursão das forças de ordem a um apartamento do bairro das pirâmides. O ramo egípcio do EI reivindicou este ataque.

"Antes do Daesh (acrônimo do EI em árabe), havia grupos de turistas a cada dia. Agora, é raro receber mais de três ou quatro turistas", conta Merdash Ghanem, proprietário de uma loja de souvenires próxima às pirâmides.

"Como podemos esperar ter turistas na região quando veem pessoas matando umas às outras?", questiona.

É preciso esperarAlguns dias depois da tragédia aérea, a Rússia suspendeu todos os seus voos com destino ao Egito, enquanto Londres interrompeu seus voos rumo a Sharm el-Sheikh.

O turismo, setor-chave da economia, já sofria com a instabilidade política e a violência que abalam o país desde a revolta de 2011, que deu fim ao mandato de quase 30 anos de Hosni Mubarak. O número de visitantes caiu dos quase 15 milhões, em 2010, para 9,3 milhões cinco anos depois.

"A instabilidade regional no Iraque, Síria e Líbia também afeta o turismo no Egito" destaca Ibrahim al-Guitani, especialista do centro regional de pesquisas estratégicas, com sede na cidade do Cairo. "Se os russos e os britânicos não regressarem, será o fim do turismo no Egito", adverte.

Com 5,6 bilhões de euros em 2015, a receita do setor caiu cerca de 15% em relação ao ano anterior, segundo dados oficiais.

Logo depois da tragédia aérea, as perdas mensais chegaram a 2,2 milhões de libras egípcias para os meses de novembro e dezembro, isto é, cerca de 26 milhões de euros.

"Trabalhamos com os turistas de geração em geração e não sabemos fazer outra coisa. É preciso esperar até que a situação melhore", aponta, fatalista, o proprietário de camelos Ibrahim.

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