Lula diz não temer Justiça após depor sobre esquema de corrupção na Petrobras

São Paulo, 4 Mar 2016 (AFP) - O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou nesta sexta-feira que não teme a Justiça, depois que a polícia fez buscas em sua casa e o levou a depor sobre o esquema de corrupção na Petrobras.

"Eu me senti prisioneiro hoje de manhã", disse Lula na sede nacional do Partido dos Trabalhadores, em São Paulo, após prestar depoimento à Polícia Federal no aeroporto de Congonhas.

"Se queriam me ouvir só tinham que me chamar que eu ia, porque não devo e não temo" a Justiça, afirmou perante dezenas de correligionários, que repetiam "Lula, guerreiro do povo brasileiro!".

A polícia fez buscas nesta sexta-feira na casa do ex-presidente, que governou o Brasil entre 2003 e 2010, a pedido dos procuradores que investigam se ele e a sua família receberam favores de grandes empreiteiras.

Os procuradores "acenderam em mim a chama. A luta continua!", afirmou Lula. "Acho que merecia um pouco mais de respeito neste país", mas "não vou baixar a cabeça", prometeu.

"Não sei se serei candidato em 2018" à Presidência, afirmou, antecipando que viajará o país para defender o PT.

Os procuradores que investigam Lula detalharam suas principais suspeitas de possíveis crimes de corrupção e lavagem de dinheiro contra o ex-presidente, uma das personalidades políticas mais importantes da América Latina.

"Lula, além de líder partidário, era o responsável final pela decisão de quais seriam os diretores da Petrobras e foi um dos principais beneficiários dos delitos. De fato, surgiram evidências de que os crimes o enriqueceram e financiaram campanhas eleitorais e o caixa de sua força política", anunciou a Procuradoria do Paraná em um comunicado.

O procurador Carlos Fernando dos Santos Lima disse a jornalistas que grandes empreiteiras, acusadas de corrupção na Petrobras, pagaram a Lula, na forma de doações ou honorários por conferências, cerca de 30 milhões de reais.

"Os favores são muitos e difíceis de quantificar", disse o procurador.

A presidente Dilma Rousseff manifestou hoje seu "integral inconformismo" com a condução coercitiva do ex-presidente Lula.

"Manifesto meu integral inconformismo com o fato de um ex-presidente da República que, por várias vezes, compareceu voluntariamente para prestar esclarecimentos perante às autoridades competentes, seja agora submetido a uma desnecessária condução coercitiva para prestar um depoimento", manifestou a presidente em um texto com seu nome, distribuído à imprensa.

Para o líder do governo na Câmara, deputado José Guimarães (PT-CE), foi "uma ação que sinaliza claramente que eles declararam guerra a nós, ao nosso projeto, ao PT, ao ex-presidente Lula e à presidente Dilma".

O presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, também questionou duramente o episódio.

"Lula, o caminho tem sido longo e não podem contigo, deste ataque miserável sairás ainda mais forte, a Venezuela de Abraça", escreveu Maduro no Twitter.

O presidente boliviano, Evo Morales, expressou solidariedade ao seu ex-colega, e disse que o imperialismo quer castigá-lo.

"Quero expressar minha solidariedade ao companheiro Lula. Nesta manhã, detiveram o ex-presidente do Brasil. Nossa saudação revolucionária, a luta continua", afirmou Morales durante uma reunião com líderes camponeses em Chapare, no centro do país, de acordo com agência estatal de notícias ABI.

Os parlamentares da Frente para a Vitória (FPV), o partido da ex-presidente argentina Cristina Kirchner (2007-2015), reforçaram o repúdio ao que chamaram de "perseguição" ao ex-presidente.

Eles manifestaram nesta sexta sua "mais profunda preocupação e rechaço à perseguição que está sofrendo o ex-Presidente do Brasil, Inácio 'Lula' da Silva" (2003-2010).

"Afirmamos que esta atitude repressiva faz parte de uma estratégia mais geral que pretende perseguir e amedrontar os que lideraram os processos populares na América Latina, processos que permitiram avançar em políticas de crescimento, soberania e distribuição da riqueza na Região", de acordo com um comunicado divulgado por esses parlamentares.

"Consideramos que a utilização de manobras - por intermédio da 'Justiça', como ferramenta para erodir o apoio popular daqueles que lideraram, da Presidência, os processos de mudança - atenta contra as instituições democráticas", insistiram.

"Violência"O Instituto Lula, do ex-presidente, sustentou que as ações policiais desta sexta-feira representam "uma agressão ao Estado de Direito".

"A violência praticada hoje contra o ex-presidente Lula e sua família, contra o Instituto Lula, a ex-deputada Clara Ant e outros cidadãos ligados ao ex-presidente é uma agressão ao Estado de Direito que afeta toda a sociedade brasileira", informou o Instituto em um comunicado.

A ação da polícia "é arbitrária, ilegal e injustificável, além de constituir uma grave afronta ao Supremo", acrescentou.

Lançando gritos e repetindo palavras de ordem, dezenas de manifestantes se concentraram na sede da Polícia, onde Lula depôs durante três horas. Alguns foram apoiá-lo, outros, para criticá-lo, e vários chegaram ao confronto corporal, constataram jornalistas da AFP.

Propriedades de luxo"Há evidências de que o ex-presidente Lula recebeu valores oriundos do esquema da Petrobras por meio da destinação e reforma de um apartamento triplex e de um sítio em Atibaia, da entrega de móveis de lixo nos dois imóveis e da armazenagem de bens por transportadora", afirmou a Procuradoria em um comunicado.

Lula nega ser proprietário do tríplex em Guarujá e do sítio. A Procuradoria suspeita de que os prédios foram reformados por grandes empreiteiras, que em troca obtinham contratos na Petrobras.

"Acreditamos que o sítio é realmente do senhor Luiz Inácio", disse o procurador Lima.

Lula continua sendo uma das figuras políticas mais influentes do Brasil e seu destino está estreitamente ligado ao de sua sucessora, a presidente Dilma Rousseff, e do PT.

A "Operação Lava Jato", que investiga o desvio de mais de dois bilhões de dólares da Petrobras, é considerada a maior investigação anticorrupção da história do Brasil e já mandou para a prisão - ou ameaça fazê-lo - dezenas de parlamentares, governadores, ex-funcionários da petroleira e alguns dos principais empresários do país.

As apreensões ocorrem um dia depois de um vendaval político no Brasil, após o vazamento de supostas declarações do senador da base governista Delcídio Amaral ao Ministério Público, acusando Dilma Rousseff de interferir nas investigações do escândalo na Petrobras, e Lula, de estar a par do esquema de corrupção.

O artigo com supostas declarações de Amaral, publicado na revista IstoÉ, despertou a ira do governo. A própria presidente advertiu, indignada, que vazamentos à imprensa não podem ser usadas como arma política e que o combate à corrupção é e continuará sendo sua prioridade.

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