Lula leva luta para salvar sua imagem às ruas do Brasil

São Paulo, 5 Mar 2016 (AFP) - O ex-presidente Lula pediu a seus partidários que o apoeim depois do polêmico incidente em que foi levado à força para prestar declarações sobre seu suposto envolvimento no megaescândalo da Petrobras.

A atuação da justiça e das forças de segurança com o ex-presidente reaqueceram a crise política pela qual passa o país, imerso em uma recessão econômica e sacudido pelas revelações de uma trama de subornos bilionários na petroleira.

No sábado, cerca de 500 simpatizantes de Luiz Inacio Lula da Silva se reuniram em frente ao prédio onde vive o ex-presidente e até Dilma Rousseff viajou de Brasília para apoiá-lo pessoalmente.

"Lula ficou muito animado durante o encuentro que tivemos com a presidenta Dilma para apoiá-lo. A presidente disse: ?Lula, você é muito importante para o povo e para Brasil?. E Lula me disse que se sentia muito motivado para a luta", disse o deputado do PT Vicente da Silva após a reunião.

A fotografia da presidente Dilma ao lado de Lula acenando da varanda contrastou com as comemorações de alguns brasileiros na sexta-feira nas redes sociais, pela ação policial que obrigou o ex-presidente a dar explicações pelo escândalo de corrupção que custou mais de 2 bilhões de dólares à Petrobras.

A cena também pode ser considerada um retrato do momento político vivido pelo Brasil, onde Dilma Rousseff enfrenta dois processos que poderiam dar fim a seu mandato e que são impulsionados por uma oposição em guerra aberta contra seu governo.

- Favores -Suspeita-se que Lula tenha aceitado favores milionários de construtoras acusadas de desfalcar a Petrobras, por meio de uma esquema político-empresarial envolvendo subornos e fraudes destinadas a financiar forças aliadas ao governo e enriquecer os envolvidos, conforme aponta a Procuradoria.

Por essa escandalosa trama, a polícia bateu na porta do apartamento de Lula na manhã da última sexta-feira, em uma operação que incluiu efetivos armados e fechamento de ruas.

O carismático Lula, que aos 70 anos se encara como eventual candidato à presidência pelo Partido dos Trabalhadores para as eleições de 2018, se declarou ultrajado, e em inflamados discursos afirmou na sexta-feira que "se quiserem me derrotar terão que me enfrentar nas ruas deste país".

"A partir de segunda-feira estou disposto a viajar por todo o país. Se alguém pensa que vai me calar com perseguições e denúncias, eu sobrevivi à fome, e quem sobrevive à fome não desiste nunca", disse Lula, que durante a infância foi engraxate, passando a atuar como torneiro mecânico e sindicalista, antes de alcançar a presidência.

Uma manifestação de apoio ao ex-presidente foi convocada para a próxima terça-feira, enquanto a oposição prepara há semanas um novo protesto no dia 13 de março para pressionar pela saída de Dilma do governo.

Na sexta-feira, dezenas de manifestantes pró e anti-Lula se enfrentaram diante da casa do ex-presidente e na sede da polícia onde ele depôs.

- Ímpeto para o impeachment -Os problemas judiciais de Lula enfraquecem ainda mais a presidente Dilma, que conta com apenas 11% de popularidade e está cercada por várias fronts.

Ao escândalo na Petrobras que levou à prisão de importantes figuras de seu partido, se soma um processo de destituição contra elas por maquiar as contas públicas, uma crise política que bloqueia sua agenda no Congresso e o Tribunal Superior Eleitoral investiga se o financiamento de sua campanha à reeleição foi ilegal.

"A declaração forçosa de Lula dará mais força aos pedidos de impeachment, e a oposição ganha um novo ímpeto para tentar forçar a saída de Rousseff", opinou o analista político André César.

O tensionamento do ambiente político acontece em meio à recessão da economia, que deve ser a mais grave em um século, à inflação de dois dígitos e ao desemprego em alta.

O senador da oposição Aécio Neves, do PSDB, que perdeu a eleição para Dilma em 2014 por uma pequena margem, anunciou que o Congresso interromperá a partir de segunda-feira as votações até que a comissão de impeachment seja instaurada.

- Manobra questionada -Ainda não há acusações formais contra Lula. Os procuradores dizem que há indícios de enriquecimento ilícito e tráfico de influência no âmbito da Operação Lava Jato, que tenta desvendar o esquema de corrupção na Petrobras, mas esclarecem que esta fase é investigativa.

A transferência forçada do ex-presidente à Polícia Federal em São Paulo para depor sem intimação prévia foi questionada por juristas e inclusive por um ministro do Supremo Tribunal Federal.

"Não se pode obrigar alguém a prestar depoimento quando não está obrigado a fazê-lo. É o caso de Lula, que já prestou depoimento espontaneamente no âmbito deste caso", disse à AFP Thiago Bottino, especialista em direito penal da Fundação Getúlio Vargas (FGV).

O juiz Sergio Moro, a cargo da investigação da fraude da Petrobras que custou à estatal 2 bilhões de dólares, afirma que tomou a decisão de surpreender Lula ao amanhecer em sua casa para evitar tumultos entre manifestantes governistas e da oposição.

bur-lbc-dw/cc

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