Entrevista AFP - Chavismo descarta renúncia de Maduro e promete lutar

Caracas, 8 Mar 2016 (AFP) - O chavismo vai lutar contra uma oposição "cega" para derrubar o governo e descarta, de cara, uma renúncia do presidente Nicolás Maduro, reivindicada por seus adversários - declarou o chefe da bancada do governo no Congresso, o deputado Héctor Rodríguez, em entrevista à AFP.

A conversa aconteceu no jardim de uma casa onde viveu o revolucionário sul-americano Simón Bolívar, no noroeste de Caracas, e que hoje acolhe as reuniões do partido governista.

"Nicolás não vai renunciar. Vai-se dedicar exclusivamente a governar para a maioria do país, inclusive para eles (seus críticos)", declarou Rodríguez, um advogado de 33 anos que lidera a minoria chavista desde 5 de janeiro, quando a oposição assumiu o controle do Parlamento pela primeira vez em 17 anos de governo socialista.

Nesta terça-feira, a coalizão opositora Mesa da Unidade Democrática (MUD) anunciou que promoverá, de forma simultânea, um referendo revogatório e uma emenda constitucional para tirar Maduro (2013-2019) do poder, assim como uma "grande mobilização" para pressionar por sua renúncia.

"Há uma batalha econômica que é nossa prioridade e onde estamos concentrando o esforço. Vamos travar as batalhas políticas e vamos continuar a superá-las, como fizemos em 200 anos de história" republicana, garantiu o deputado, ao se referir à estratégia a ser adotada pela oposição contra o presidente.

'Nada novo'Rodríguez afirmou que os planos da oposição fazem parte de uma trama repetida desde a chegada ao poder do falecido presidente Hugo Chávez (1999-2013). Chávez sobreviveu politicamente a um golpe de Estado em 2002 e a um referendo revogatório em 2004.

"Durante todas as épocas desta revolução a oposição disse: golpe de Estado, vá embora agora, renúncia, referendo. Não é nada novo, é a mesma coisa que diziam a Chávez. A oposição não mudou nada em seu discurso. Estão cegos para tomar (o Palácio presidencial de) Miraflores", afirmou Rodríguez, uma das figuras emergentes do oficialismo.

A única novidade que o parlamentar vê na rota da oposição contra Maduro é que a ativação de múltiplas alternativas demonstra que "não chegaram a um acordo sobre nenhuma" em particular.

Isso acontece - segundo ele - porque, na MUD, "há uma grande disputa" por uma futura candidatura à presidência. Para ele, este é um "debate miserável", que não está à "altura do momento" que a Venezuela vive pela aguda crise econômica.

Adeus à 'prepotência'O deputado ressaltou que isso não quer dizer que o chavismo subestime a "atitude golpista" da oposição, insistindo em que o governo não se deixará "tirar de sua prioridade que é superar a emergência econômica".

O líder da bancada governista defende que Maduro adotou as medidas corretas para reverter essa situação, buscando um acordo para estabilizar o mercado petroleiro dentro e fora da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) e convocando os empresários a elevar a produção.

Em contrapartida, completou Rodríguez, a oposição "não oferece nada ao país" além de sua gana de poder, o que torna, segundo ele, quase impossível um diálogo para pactuar medidas econômicas e deixar a luta política para segundo plano.

"É difícil dialogar com alguém que diz para você 'vou te derrubar em seis meses'", justificou Rodríguez, acusando a MUD de estar a serviço do "jogo geopolítico" dos Estados Unidos para se apropriar das reservas petroleiras da Venezuela, as maiores do planeta.

Segundo o deputado, somadas a um boicote contra o país para que não possa ter acesso a crédito internacional e a um desabastecimento induzido, essas manobras configuram o que o governo denuncia como uma "guerra econômica".

Em meio à "grande dificuldade" representada pela crise, Rodríguez garante que o chavismo soube revidar a "bofetada" da esmagadora vitória da oposição nas eleições legislativas de dezembro, denunciando a "prepotência" e sem se conformar com as "conquistas sociais" da revolução.

"Dezessete anos no poder nos levaram a nos afastarmos do dia a dia, do povo. Temos de voltar às nossas origens, à democracia participativa", acrescentou.

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