Presidente colombiano se nega a assinar acordo ruim com Farc

Em Bogotá

  • Fernando Vergara/AP

O presidente da Colômbia, Juan Manuel Santos, declarou nesta quarta-feira (9) que não assinará um acordo de paz com as Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) em 23 de março, data limite fixada por ambas as partes, enquanto o negociado for um "mau acordo".

"Se não alcançarmos em 23 de março um bom acordo, digo à outra parte que determinemos outra data, porque não vou cumprir um prazo com um mau acordo", afirmou o chefe de Estado durante um comício na cidade de Pereira (oeste).

O governo de Santos e as Farc, em conflito contra o Estado desde 1964, marcaram a data limite de 23 de março para selar um acordo de paz, negociando desde novembro de 2012, em Cuba.

O presidente disse que "depois de muito esforço, depois de tanto tempo" apenas assinará e cumprirá um acordo "que seja bom para os colombianos".

"Espero que possamos assinar, como eu disse, os negociadores estão na reta final", afirmou, no encerramento da 63ª conferência da Confederação Evangélica da Colômbia.

Em 23 de setembro do ano passado, Santos e o líder das Farc, Timoleón Jiménez, conhecido como "Timochenko", anunciaram um prazo máximo de seis meses para alcançar um acordo final visando acabar com meio século de conflito.

Na semana passada, as Farc tinham manifestado a "certeza" de que para o fim de 2016, os colombianos poderiam contar com um protocolo de paz que "permita propagar aos quatro ventos: a guerra acabou", dando a entender que o prazo estabelecido entre as duas partes poderia se estender.

Sem mencionar o 23 de março, a guerrilha informou que a assinatura de um pacto definitivo de paz "está determinada pelos compromissos" que podem alcançar sobre o fim do conflito e o referendamento dos acordos, últimos pontos em discussão, segundo o planejamento das conversações.

As partes, que já alcançaram um consenso parcial sobre a reforma agrária, a luta contra o tráfico de drogas, a participação política dos combatentes, a justiça e as vítimas, debatem atualmente as questões complexas relativas ao fim do conflito, como o cessar-fogo e a entrega definitiva das armas.

"O que falta? O fim do conflito: para onde vão os membros das Farc quando se desarmarem, como vão entregar as armas, a quem, em quais datas, qual vai ser o tamanho dos locais onde vão ficar, com que duração, onde e quantos? Tudo isto está sendo negociado neste momento", explicou Santos nesta quarta-feira.

Além disso, ele afirmou que falta definir os magistrados do tribunal de justiça transitório, outro tema sensível.

"Os negociadores estão trabalhando a ritmo forçado para cumprir esta meta (...), mas há muitos temas a resolver", indicou.

O conflito interno na Colômbia, que por mais de cinco décadas envolveu guerrilheiros, paramilitares e militares, fez oficialmente 7,5 milhões de vítimas, incluindo 260 mil mortos, 45 mil desaparecidos e 6,6 milhões de deslocados.

Em junho, setembro, no fim do ano

A incerteza sobre a assinatura de um eventual acordo em duas semanas para acabar com um conflito aumenta com a proximidade da data.

"Em 23 de março haverá algo, veremos se é a assinatura total do acordo ou se é a assinatura de parte do acordo", disse na segunda-feira a chanceler colombiana, María Ángela Holguín, partícipe nas negociações de Havana.

"O que queremos é chegar ao fim do acordo certos dos compromissos assumidos e que seja uma paz duradoura e estável para o país", acrescentou.

Em entrevista à AFP antes de concluir sua missão na Colômbia, o ex-representante local da ONU Fabrizio Hochschild advertiu que o pacto final com as Farc poderia exigir mais tempo.

"A expectativa de muitos é que se chegue à assinatura, tomara que na primeira metade deste ano", disse.

Ariel Ávila, analista da Fundação Paz e Reconciliação, estimou que ultrapassar o prazo não coloca em risco as negociações. "Ao contrário (...) Isto demonstra a fortaleza do processo", disse à AFP.

Segundo o especialista, prova que "tanto as Farc quanto o governo estão procurando fazer o melhor acordo para assinar".

"Este prazo estava fazendo mais mal do que bem ao processo", avaliou o diretor do centro de análise do conflito (Cerac), Jorge Restrepo.

"Faz bem o presidente em por os pés na realidade de uma negociação difícil e remover este prazo e moderar as expectativas que ele e 'Timochenko' criaram desnecessariamente", disse o analista, que espera a assinatura "para setembro".

Farc custa, por ano, dois pontos percentuais do PIB da Colômbia

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