Chipre ameaça bloquear projeto de acordo UE-Turquia sobre migrantes

Nicósia, 15 Mar 2016 (AFP) - Dois dias antes de uma nova cúpula UE-Turquia, o Chipre ameaça bloquear o projeto de acordo entre Ancara e os 28 para tentar parar o fluxo de migrantes, o que provoca novas tensões na fronteira entre a Grécia e a Macedônia.

Em visita a Nicósia, o presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk, deparou-se com a forte resistência por parte das autoridades cipriotas sobre o acordo de princípio estabelecido na semana passada entre europeus e turcos.

O presidente Nicos Anastasadies reiterou que seu país "não tem a intenção de aprovar a abertura de novos capítulos" nas negociações de adesão da Turquia à União Europeia (UE) se Ancara não respeitar "as suas obrigações".

Mas essa retomada das negociações de adesão é uma das medidas concedidas por Bruxelas para a Turquia aceitar o acordo.

"Ele é deslocado, contra-produtivo, para não dizer inaceitável, de transferir o peso da responsabilidade pela crise migratória sobre os meus ombros e os da República do Chipre", declarou Anastasiades após reunião com Tusk.

O presidente do Conselho Europeu, que é esperado em Ancara ainda nesta terça à tarde, reconheceu que ainda há trabalho a ser feito antes da nova cúpula programada para quinta e sexta-feira em Bruxelas, na qual europeus e turcos devem tentar finalizar o seu projeto de acordo.

"O objetivo é concluir as negociações na quinta ou sexta-feira, mas ainda não alcançamos esse ponto. Uma das questões problemáticas é resolver a questão-chave da legalidade", disse Tusk.

"A proposta turca preparada com a Alemanha ainda precisa ser reequilibrada para que possa ser aceita pelos 28 Estados-membros e as instituições europeias", acrescentou.

O plano prevê a readmissão pela Turquia de todos os migrantes que entrarem ilegalmente na Grécia, incluindo os requerentes de asilo sírios que fogem da guerra em seu país. Em troca, os europeus comprometem-se, para cada sírio reenviado para a Turquia, aceitar um candidato sírio em seu território.

A Turquia também exige três bilhões de euros de ajuda adicional até 2018 e um regime de isenção de vistos para os cidadãos que quiserem viajar na UE até o final de junho, além da abertura rápida das negociações sobre cinco novos capítulos de adesão.

Quebra-cabeça cipriotaAs relações entre a UE e a Turquia estiveram sob tensão por um longo período em razão da questão do Chipre, dividido em dois desde a invasão da parte norte pela Turquia em 1974, em resposta a um golpe de Estado nacionalista que procurava ligar a ilha com a Grécia.

A República do Chipre, membro da UE, mas não reconhecido por Ancara, bloqueou seis capítulos principais das negociações desde 2009, provocando o congelamento do processo de adesão da Turquia à UE.

Por sua vez, Ancara proibiu seus portos e aeroportos aos navios e aviões vindos da parte sul do Chipre.

A esperança de alcançar um acordo de paz, no entanto, têm crescido nos últimos meses, com a retomada das negociações entre os líderes cipriotas gregos e turcos, em maio 2015, sob a égide da ONU.

O projeto de acordo sobre os migrantes levanta muitas dúvidas, não só entre as organizações de defesa dos direitos humanos, mas também entre os países europeus receosos do autoritarismo do governo turco.

A França defenderá na cúpula de Bruxelas uma "cooperação eficaz" com Ancara, mas "não pode haver a menor chantagem" da Turquia, afirmou nesta terça-feira o primeiro-ministro Manuel Valls.

Enquanto isso, a crise migratória continua, principalmente na fronteira greco-macedônia.

Cerca de 1.500 refugiados e migrantes que conseguiram na segunda-feira atravessar a fronteira fechada na semana passada foram devolvidos para a Grécia, de acordo com as autoridades macedônias.

Estas "devoluções" surpreenderam a Grécia, incluindo o primeiro-ministro Alexis Tsipras, que criticou a atitude "criminosa" daqueles que orquestraram a tentativa de burlar a fronteira.

"Nós acreditamos que a rota dos Bálcãs não será reaberta", alertou, convidando os cerca de 12.000 refugiados e migrantes reunidos no acampamento improvisado de Idomeni a se atentar a isso.

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