Lula assume Casa Civil com missão de conter hemorragia no governo Dilma

Brasília, 16 Mar 2016 (AFP) - O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva assumiu nesta quarta-feira a chefia da Casa Civil, um ministério-chave no governo de sua sucessora, Dilma Rousseff, com a missão de conter a hemorragia de uma administração acuada por denúncias de corrupção e uma profunda crise econômica.

Após dois dias de negociações, o ex-chefe de Estado, de 70 anos, membro fundador do Partido dos Trabalhadores, selou com Dilma o acordo que volta a colocar em primeiro plano o homem forte do partido.

Uma edição extraordinária do Diário Oficial informou nesta quarta que Lula é o novo chefe da Casa Civil, no lugar de Jaques Wagner, que assumirá a chefia do gabinete da presidência.

Legisladores do PT tinham antecipado a notícia de que, segundo a imprensa, a chegada de Lula precede uma reforma ministerial mais ampla. Fontes do Planalto informaram à AFP que a intenção é formar um "governo de notáveis", com a volta de alguns nomes que ocuparam cargos ministeriais durante os dois mandatos de Lula, entre 2003 e 2010.

Investigado pela justiça no caso do escândalo da Petrobras, o ex-presidente terá a tarefa imediata de conter uma potencial diáspora de aliados da coalizão do governo, que lhe permita bloquear um pedido de impeachment contra Dilma pelo Congresso.

A chegada de Lula ao gabinete "fortalece o governo e há pessoas que não querem que seja mais forte", afirmou sua sucessora e herdeira política. Para ela, o ex-presidente terá "os poderes necessários" para "ajudar o Brasil".

A superação da atual crise e dos enredos judiciais de Lula lhe permitirá preparar o terreno para sua eventual candidatura às eleições presidenciais de 2018.

A ascensão de Lula como novo homem forte de um governo impopular gerou duras críticas da oposição, que o vê como uma tentativa do ex-presidente de obter foro privilegiado para escapar da justiça comum e, em especial do juiz Sérgio Moro, que investiga o escândalo na Petrobras.

"Do ponto de vista político, será visto sempre como uma tentativa de interferir de forma direta" nas investigações da 'Operação Lava Jato', afirmou o senador Aécio Neves, derrotado por Dilma nas eleições presidenciais de 2014.

A presidente Dilma Rousseff rejeitou estas alegações.

"Prerrogativa de foro não é impedir a investigação, é fazê-la em determinada instância (...) A troco de eu vou achar que a investigação do juiz Sérgio Moro é melhor do que a investigação do Supremo? Essa é uma inversão de hierarquia", disse Dilma em rápida coletiva de imprensa.

"Por trás de uma afirmação dessa, tem sobretudo uma suspeita do Supremo Tribunal Federal. Ou seja, o Supremo não é uma justiça que pode punir, que pode mandar investigar e absolver? É a Suprema Corte do país", argumentou Dilma.

"A ida de um presidente, de um ministro, de um deputado federal ou de um senador não significa que ele não é investigado. Por trás dessa afirmação de que seria se esconder, estaria uma desconfiança da Suprema Corte do país? Isso é que as oposições querem colocar?" - questionou a presidente.

Coalizão em perigoO Supremo Tribunal Federal deliberou sobre o formato da tramitação do impeachment, o que destravará o processo congelado por recursos judiciais. Esta decisão habilita a Câmara dos Deputados a instalar a comissão que analisará em primeiro lugar se há argumentos para iniciar o processo de impeachment.

No fim de semana passado, o principal aliado da coalizão de governo, o PMDB, anunciou que pode romper a aliança, fragilizando ainda mais a presidente Dilma.

Seus críticos afirmam que Lula voltará a chefiar o governo e que a presidente não poderá evitar passar ao papel de coadjuvante.

"O ex-presidente inicia na Casa Civil seu terceiro mandato e a presidente termina seu segundo. Não há como fazer outra leitura, isto é grave. Acho que o governo se afunda ainda mais (...) A enorme rejeição da presidente Dilma se soma agora à rejeição do presidente Lula", disse Álvaro Dias, senador do Partido Verde.

Enquanto o PT acende velas para que o pai do milagre brasileiro reanime a atribulada gestão de Dilma, o país patina em uma recessão econômica que se encaminha para ser a pior em um século. O PIB encolheu 3,8% em 2015 e as previsões do mercado são de que cairá outros 3,5% em 2016, enquanto o desemprego atinge 7,6% e a inflação supera os dois dígitos.

Mar de lamaEm Brasília, ainda ressoam as acusações de corrupção feitas pelo ex-líder do governo no Senado Delcídio Amaral, acusado de obstruir as investigações da 'Lava Jato', que foram divulgadas na terça-feira e respingaram em grande parte do espectro político, inclusive em Lula e Dilma.

Em seu depoimento, Delcídio Amaral disse que Dilma mandou suborná-lo para que não fizesse delação premiada e que Lula tentou interferir no caso.

Segundo Amaral, o ministro da Educação, Aloízio Mercadante, insinuou um apoio em troca de que não colaborasse com as autoridades, mas ele teria desconsiderado a oferta e decidiu delatar outros envolvidos em troca de uma redução de uma eventual pena.

Sua delação foi aceita pelo Supremo, dando luz verde à Procuradoria-geral da República para iniciar investigações sobre os citados, entre eles o líder da oposição, senador Aécio Neves (PSDB), derrotado por Dilma nas eleições de 2014, e o vice-presidente, Michel Temer.

Em um clima de comoção pública, aprofundado por manifestações que levaram às ruas milhões de pessoas no domingo passado para pedir a saída de Dilma, o PT responderá com uma manifestação para a sexta-feira, que será prova do apoio social com que a impopular Dilma Rousseff ainda pode contar.

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