O conturbado retorno de Lula ao Palácio do Planalto, cinco anos depois

Brasília, 18 Mar 2016 (AFP) - "Ministro Lula", disse a presidente Dilma Rousseff ao se dirigir ao antecessor e empossá-lo seu novo chefe da Casa Civil, em cerimônia nesta quinta-feira, no Palácio do Planalto.

O carismático presidente, que governou o Brasil entre 2003 e 2010, voltava nesta quinta-feira para o governo, em um cargo equivalente ao de um premiê com o objetivo de resgatar o abalado governo de Dilma Rousseff.

Durante a cerimônia, intensa e em clima de comício, a presidente Dilma Rousseff refere-se ao seu agora subordinado como "o maior líder político do país", com uma "grandeza de estadista".

Mas Luiz Inácio Lula da Silva, duas vezes chefe de Estado e pai de um modelo que tirou da pobreza 30 milhões de brasileiros, voltava a Brasília, a cidade das grandes perspectivas, em um ambiente muito diferente ao que existia quando a deixou em 2010, com 80% de popularidade.

A cerimônia de sua nomeação esteve abrigada por companheiros de gestões passadas, funcionários e militantes de seu Partido dos Trabalhadores (PT).

Ela desceu a rampa para o salão onde foi empossado ao lado de Dilma Rousseff. Ao aparecer, a euforia invadiu o recinto. Do lado de fora, centenas de militantes vestindo vermelho detonavam rojões.

Mas esta cenografia não bastou para ignorar sequer um momento a tensão que o Brasil vive e o fato de que Dilma Rousseff, o governo do PT e o próprio Lula estão encurralados pela crise econômica e pelas denúncias de corrupção na Petrobras que, segundo a justiça, ocorreram durante a administração do ex-sindicalista.

A lama do "Petrolão" ronda Lula e sua família. Os investigadores suspeitam que ele tenha ocultado bens e tentado obstruir a justiça.

"Vergonha!", gritou um deputado em frente ao púlpito onde Dilma discursava na cerimônia de posse, destoando com o clima de desagravo e alegria algo forçada que se instalou aos gritos de "Ole, Ole, Ola, Lulá, Lulá". O parlamentar foi tirado à força enquanto os militantes o acusavam de "golpista".

Lula assistiu a cena em silêncio.

Sua entrada no governo atiçou os ânimos no atribulado Brasil versão 2016. Muitos a veem como uma mera estratégia para evitar enfrentar o juiz Sérgio Moro, encarregado da "Operação Lava Jato" sobre o escândalo da Petrobras e novo herói anticorrupção dos brasileiros. Como ministro, Lula terá foro privilegiado.

O ícone da esquerda latino-americana, líder das greves dos anos 1980 contra o regime militar, deixou o Palácio sem dar declarações, mas abraçado com o carinho habitual que desperta nas pessoas que o cercavam com veneração.

Uma virtude que Dilma Rousseff destacou em seu discurso.

"Conto com sua experiência de ex-presidente, com sua identificação com o povo deste país, com sua capacidade incomparável (...) de entender este povo e ser entendido e amado por ele", afirmou.

Instantes depois, um juiz declarou suspensa sua posse.

Manifestações contrárias à nomeação de Lula e à continuidade de um governo que não encontra o rumo em meio a uma crise tão colossal quanto inesperada persistem em diversas cidades do país.

Também está muito viva a imagem de doze dias atrás, quando a polícia o levou em condução coercitiva a depor em São Paulo em uma sala do Aeroporto de Congonhas.

Nesta quinta-feira, em Brasília, a polícia mobilizou a cavalaria, pôs grades entre os grupos, fechou a saída principal do Palácio do Planalto e reconduziu os que queriam sair para um estacionamento subterrâneo, onde outros efetivos de segurança preparavam seus escudos e bombas de gás.

Não houve festa.

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