Obama enaltece 'novo dia' nas relações entre Cuba e Estados Unidos

Havana, 22 Mar 2016 (AFP) - Em uma visita histórica a Havana, o presidente americano, Barack Obama, enalteceu nesta segunda-feira um "novo dia" nas relações entre Cuba e Estados Unidos, por décadas antagonistas na Guerra Fria.

Tentando estabelecer um limite na pesada intervenção americana nos negócios da Ilha, Obama prometeu que "o destino de Cuba não será decidido pelos Estados Unidos, nem por qualquer outra nação".

Em entrevista coletiva ao lado do presidente cubano, Raúl Castro, Obama disse que seu país "continuará defendendo a democracia, incluindo o direito do povo cubano de decidir seu próprio futuro".

O presidente Castro pediu a Obama que "aceite e respeite as diferenças e não faça delas o centro de nossa relação, mas que promova vínculos que privilegiem o benefício de ambos os países e povos".

"O objetivo do diálogo sobre direitos humanos não é que os Estados Unidos ditem a Cuba como deve se governar, mas nos assegurarmos de que temos uma conversa franca, honesta sobre este tema, e que possamos aprender uns com os outros", declarou Obama na entrevista coletiva com Raúl, transmitida ao vivo pela TV cubana.

Obama e Castro se reuniram por mais de duas horas no emblemático Palácio da Revolução. No encontro, foram abordados temas sensíveis para os dois países, como o embargo dos Estados Unidos e os direitos humanos na ilha comunista.

Este foi o primeiro encontro com Raúl Castro desde a chegada de Obama a Havana, no domingo à tarde. Foi a terceira reunião de ambos desde que decidiram normalizar a relação bilateral, em dezembro de 2014.

Os dois presidentes já haviam se reunido em abril de 2015 na Cúpula das Américas, realizada no Panamá, e cinco meses depois na sede da ONU, em Nova York.

Obama, de 54 anos, viajou à ilha caribenha junto com a primeira-dama, Michelle, e suas filhas, Sasha e Malia, para uma visita de três dias - a primeira de um presidente americano em 88 anos.

Mais mudançasA entrevista coletiva subiu de tom quando um jornalista questionou Raúl Castro sobre a detenção de opositores.

"Me dê agora mesmo a lista dos presos políticos para soltá-los, mencione-a agora", respondeu Castro, visivelmente agitado.

"Se há estes presos políticos, antes do cair da noite, estarão soltos", acrescentou.

Mais adiante, Raúl Casto voltou a falar sobre o assunto, confrontado com uma nova pergunta, e afirmou: "não é correto nos perguntarem sobre presos políticos. Digam-me o nome do preso político e pronto".

O líder cubano de 84 anos foi questionado a esse respeito no dia seguinte à detenção, por algumas horas, de dezenas de opositores que protestavam contra o governo comunista horas antes da chegada de Obama à Ilha.

Em outro momento da entrevista, Obama garantiu que o embargo dos Estados Unidos a Cuba, em vigor desde 1962, "vai terminar, o que não sabemos é quando".

Apenas o Congresso americano pode revogar a respectiva legislação.

"Temos de aproveitar o que fizemos e esperamos que isso possa ajudar. Também temos de falar sobre direitos humanos, já que há preocupação dentro de Cuba", afirmou.

Barack Obama esclareceu que este tema não impedirá, porém, o avanço das relações.

"Considerem que tenho muitas divergências com os chineses em relação aos direitos humanos", completou.

A entrevista coletiva foi um evento incomum para os cubanos, que não costumam ver Raúl Castro respondendo perguntas.

"Quero lhe agradecer pela cortesia e por este espírito de abertura que demonstrou durante nossas conversas (...). Gostei do comentário do presidente Castro, quando disse que há certas coisas que se tem de melhorar", ressaltou Obama.

Amanhã, o presidente dos EUA deve se reunir com um grupo da oposição, na sede da embaixada de seu país.

Em uma mensagem publicada em sua página no Facebook, Obama disse ter ido a Havana "estender minha mão amistosa ao povo cubano".

"Estou aqui para enterrar o último vestígio da Guerra Fria na América e para construir uma nova era de entendimento que ajude a melhorar a vida dos cubanos", afirmou.

Uma pesquisa publicada hoje pelo jornal "The New York Times" e pela rede de TV CBS aponta que 58% dos americanos concordam com a retomada das relações com Cuba, e 52% aprovam a forma como Obama conduz essa delicada aproximação.

O presidente do "think tank" americano Inter-American Dialogue, Michael Shifter, mostrou um certo ceticismo.

"Não acho que a visita de Obama tenha um impacto imediato na política cubana, muito menos em decisões pontuais do regime em curto prazo", comentou Shifter, em conversa com a AFP.

Esta tarde, o presidente dos Estados Unidos também se reuniu com microempresários de ambos os países. À noite, o casal Obama compareceu a um jantar de Estado com Raúl.

Amanhã, Obama fará um discurso ao povo cubano que será transmitido ao vivo. Depois, assistirá a uma partida de beisebol, encerrando sua visita à Ilha. Em seguida, a família Obama embarca rumo à Argentina.

Obama quer ver FidelEm entrevista à emissora ABC, Obama explicou a mudança de política em relação a Cuba.

"Ainda temos diferenças significativas sobre direitos humanos e liberdades individuais em Cuba. Acreditamos que, agora, podemos potencializar nossa capacidade para promover mais mudanças", disse Obama à ABC, em Havana.

"Haverá uma mudanças aqui e eu acho que Raúl Castro entende isso", afirmou Obama, reconhecendo que isso não vai acontecer "do dia para a noite".

"Disse a ele (a Raúl Castro) que, durante 50 anos, usaram o discurso da agressão dos Estados Unidos, ou de suas intenções de mudar o regime, como desculpa para não permitir a dissidência em Cuba", afirmou Obama.

"Mas, com a normalização das relações, essa desculpa desaparece. Disse-lhe que não podemos forçar as mudanças em Cuba, mas que o que podemos fazer sim - e continuaremos fazendo - é defender os direitos que consideramos universais", acrescentou.

Interrogado sobre se terá um encontro com o líder da revolução cubana, Fidel Castro, Obama respondeu que gostaria de fazê-lo.

"Se estiver bem para se reunir comigo, ficaria feliz de vê-lo", admitiu Obama, explicando que uma reunião de ambos "seria um símbolo do fim da Guerra Fria".

"Mas não sei como está de saúde", completou.

Depois dessa entrevista, a Casa Branca voltou a descartar uma reunião entre Fidel e Obama.

O assistente de Obama e vice-conselheiro de Segurança Nacional para Comunicações Estratégicas, Ben Rhodes, garantiu que o presidente falava "de maneira geral".

"Não contemplamos uma reunião com Fidel Castro nesta viagem", esclareceu Rhodes, acrescentando que nem Washington nem Havana cogitaram essa possibilidade na preparação desta visita histórica.

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