Risco zero de atentados nos sistemas de transporte é impossível

Paris, 23 Mar 2016 (AFP) - Os atentados de Bruxelas ilustram a vulnerabilidade das áreas de livre acesso nos aeroportos e nos transportes públicos, locais de grande movimento e, portanto, alvo privilegiado dos extremistas.

"Enquanto a aviação e os transportes públicos continuarem sendo um alvo privilegiado dos grupos terroristas, o risco nunca poderá ser eliminado 100%", afirmou Ben Vogel, especialista em segurança aeroportuária.

Um ataque cometido em uma área livre de controles de segurança, como foi o caso no aeroporto de Bruxelas, constitui "um verdadeiro quebra-cabeças para os serviços de segurança", destacou Vogel à AFP.

As forças de segurança "estão concentradas principalmente nos controles de acesso à área de embarque, com certo êxito já que aparentemente os terroristas mudaram o modus operandi", explica o especialista.

Os halls dos aeroportos têm acesso livre e os passageiros e suas malas passam por um controle somente depois do check-in, quando entram na zona de segurança.

A proteção na zona de livre acesso pode ser aperfeiçoada, apontam os especialistas, mas controlar todas as entradas parece uma tarefa difícil de ser aplicada, já que provocaria um engarrafamento total nos grandes aeroportos.

"A logística deste controle total dos aeroportos é contrária à fluidez do tráfego do qual se alimentam. Imagine que os automóveis fossem parados a quilômetros do aeroporto para registros. Onde você deveria fazer isto exatamente para evitar um engarrafamento gigantesco?", questiona David Bentley, consultor britânico de aeronáutica.

O ponto de vista é compartilhado pelo ministro francês do Interior, Bernard Cazeneuve.

"É preciso ser racional e buscar a eficácia máxima. Caso aconteçam controles na entrada dos aeroportos, provocaria um bloqueio, tornaria impossível o funcionamento da economia", disse.

"Com filas formadas diante dos aeroportos seriam criados outros alvos para os terroristas", completou Cazeneuve à imprensa.

O deputado Gilles Savary, relator da lei sobre a segurança dos transportes na França, afirma que se trata de "estreitar ao máximo a malha da rede de segurança, mas é necessário saber que sempre será possível passar através dela".

"Se o aeroporto Zaventem de Bruxelas fosse um bunker inacessível, eles teriam atacado um mercado de Bruxelas. De maneira que temos a opção entre a 'bunkerização' ou a vida, e entre as duas existe um risco", declarou Savary à AFP.

Depois dos atentados de 13 de novembro em Paris, a França aprovou uma lei de luta contra os atos terroristas nos transportes coletivos de passageiro.

- Europa "a grande ausente" -"Mas a Europa é a grande ausente no tema", lamenta o deputado, que defende um "marco legislativo europeu em termos de segurança dos transportes terrestres, como o que existe no transporte aéreo desde os atentados de 11 de setembro de 2001 em Nova York".

No transporte ferroviário, os atentados de 13 de novembro e o ataque frustrado do fim de agosto do ano passado contra um trem Thalys levaram à instalação de pórticos para os passageiros, além de aparelhos de raio X para a bagagem na entrada das estações das linhas internacionais Thalys.

A companhia ferroviária francesa SNCF destina anualmente mais de 400 milhões de euros à segurança e desenvolve ao mesmo tempo "meios inovadores de segurança, com novos modos de detecção de explosivos e armas", assim como softwares de análise de comportamento, afirmou a empresa à AFP.

A ampliação do perímetro de controle até as portas dos terminais exigiria uma revisão completa da configuração das mesmas, com custos elevados e tempos de espera ainda mais longos para os passageiros.

"O desafio é ainda maior para os transportes terrestres, em particular ferroviários", destaca Vogel.

"O custo é tão desestimulante para as redes ferroviárias que os 28 Estados membros da UE impedem há vários anos que a Comissão apresente propostas sobre a segurança ferroviária europeia. O bloqueio resistirá à pressão pública? Este é o teste para os próximos meses", opina.

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