Para alguns delinquentes, a jihad parece ser a única saída

Paris, 14 Abr 2016 (AFP) - Promessas de redenção e de um "final heroico" para uma vida de crimes fazem da jihad islâmica uma saída tentadora para alguns delinquentes, como os irmãos El Bakraoui, que morreram matando civis nos atentados de Bruxelas, segundo especialistas.

A priori, nada parece predispor estes indivíduos a cometer atos suicidas em nome da fé: quando estão em liberdade, amam o dinheiro, carros caros e a vida fácil. Presos, são respeitados e até mesmo admirados por outros detentos.

Mas um dia, alguns se transformam e se inclinam a uma fé radical que os torna suicidas em potencial, caso de Abdelhamid Abaoud, condenado em 2010 por agressão e suspeito de ser o organizador dos atentados parisienses.

"Quando se deparam com o Islã radical, sua trajetória de vida se torna uma montanha de pecados", explica à AFP Amélie Boukhobza, psicóloga clínica.

"Passado um certo limite, o único fim possível é a redenção através da expiação total destes pecados, a posição de mártir e a perspectiva do paraíso", prossegue.

Mas como e por que a propaganda do grupo Estado Islâmico (EI) faz eco em alguns delinquentes e não em outros continua um mistério.

Para Khalid El Bakraoui, condenado a cinco anos por assalto a mão armada e que se fez explodir juntamente com o irmão no aeroporto de Bruxelas, "um sonho mudou sua vida: ele se viu atirando, combatendo os infiéis ao lado do profeta", segundo a revista online Dabiq, editada pelo EI.

Os que são atraídos, "acreditam cegamente nos preceitos do Daesh", revela o especialista em psiquiatria Daniel Zagury, utilizando o acrônimo em árabe do grupo radical. "Todo o reconhecimento que não tiveram em sua vida como delinquentes, pensam que terão no além. Sacrificaram a si mesmos, sua vida, suas famílias".

'Narcisismo profundo'"Acreditam que sua vida de delinquentes se tornará algo heroico", insiste Zagury, que estudou membros de redes jihadistas. "Um me explicou que na hora do juízo final, os anjos se inclinam sobre ti, te fazem perguntas e depois você vai para o paraíso. Não é um símbolo ou uma metáfora: anjos realmente virão por eles. Não têm nenhuma dúvida".

Alguns criminosos também se convertem, segundo o sociólogo Farhad Khosrokhavar, diretor da Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais de Paris (EHESS), impulsionados por "uma espécie de depressão" ligada ao sentimento de estar acuados em suas vidas.

"Além de um vai-e-vem incessante entre a rua e a prisão, vêm bloqueadas todas as saídas", explica. "Com o tempo, as aflições se alongam, a suspeita é permanente. E aí o ódio pode se instalar, um ódio de natureza diferente da que experimentam os jovens dos subúrbios".

Assim, pensam: "vocês não vão me matar, colocando-me na prisão como uma morte lenta, sou eu quem decide morrer, mas de forma heroica", continua o sociólogo, que trabalha frequentemente em prisões.

Na sua opinião, sempre existe "uma dimensão de fuga no Islã radical: a radicalização transfere para a morte um certo número de desafios relativos à vida. A morte se torna o último desafio lançado à sociedade, uma última exaltação do indivíduo, uma espécie de narcisismo profundo".

Além do acesso ao paraíso e às virgens "de olhos como pérolas", os candidatos a mártires acreditam que seu sacrifício lhes dará o direito de salvar do inferno 70 pessoas de sua escolha.

"E também acreditam nisto completamente", prossegue Amélie Boukhobza, que trabalha na associação Entre Outros, baseada em Nice, sobre o fenômeno da radicalização. "Um rapaz aqui disse para a mãe: 'Faço isto por você, mamãe'".

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