Deputados decidem destino da presidente Dilma em conturbada sessão na Câmara

Brasília, 17 Abr 2016 (AFP) - Os deputados decidiam neste domingo, em uma sessão conturbada, se a presidente Dilma Rousseff deve enfrentar um processo de impeachment ou continuar no comando de um país abalado por tensões políticas e pela recessão econômica.

"Está aberta a sessão, sob a proteção de Deus e em nome do povo brasileiro", disse o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, às 14h01, em um clima de extrema agitação, com deputados que, aos empurrões, gritavam "Não vai ter golpe" de um lado e "Impeachment já" do outro.

A presidente Dilma, do Partido dos Trabalhadores, é acusada de manipulação das contas públicas para ocultar o tamanho dos déficits em 2014, ano de sua reeleição, e no começo de 2015, uma manobra conhecida popularmente como 'pedaladas fiscais'. Ela nega estas acusações e as atribui a uma conspiração orquestrada por Cunha e por seu vice-presidente, Michel Temer, ambos do PMDB, partido que foi da base, mas rompeu com o governo.

O deputado Jovair Arantes, relator do processo de impeachment, destacou, no primeiro pronunciamento da sessão, que as "pedaladas fiscais" - mecanismo usado para retardar a transferência de dinheiro a bancos públicos e privados e a grandes administrações - tiveram "consequências drásticas" para a economia.

Com 505 deputados presentes no plenário, o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, declarou iniciada a votação às 17H46 de Brasília.

Os deputados são chamados a votar em alternância entre estados do sul e do norte, e tem dez segundos para justificar sua escolha em microfone. Estima-se que os resultados sejam conhecidos por volta das 21H00.

O primeiro deputado a votar foi Wahington Reis (PMDB-RJ), que se pronunciou a favor do 'Sim' ao processo de impeachment. "Que a partir de amanhã, Deus possa derramar muitas bênçãos sobre o Brasil e sobre o nosso povo brasileiro. Voto sim", declarou Reis, que votou antes dos demais devido a um problema médico.

Se 342 deputados (dois terços do total de 513 membros da Câmara, contando faltas e abstenções) votarem pelo impeachment e o Senado ratificar o resultado nas próximas semanas, a presidente Dilma Rousseff, de 68 anos, será submetida a um julgamento político que implica seu afastamento temporário do cargo por um período máximo de 180 dias.

Ela seria, então, substituída pelo vice-presidente, Michel Temer, que poderia governar até o fim do mandato, em 2018, se os próprios senadores considerarem Dilma culpada.

Este cenário apontaria a porta de saída ao "lulo-petismo" fundado pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2010), figura emblemática do hoje claudicante ciclo de governos de esquerda na região.

"Desatou-se uma batalha entre um governo incompetente, sustentado por um partido [o PT] que traiu seus ideais, e uma oposição hipócrita, liderada por um legislador acusado de delinquir, chamado Eduardo Cunha", disse à AFP AFP Sylvio Costa, diretor da publicação especializada Congresso em Foco.

A crise política brasileira é acompanhada com preocupação pelo resto do mundo, faltando menos de quatro meses para a abertura dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro.

ManifestaçõesAs manifestações convocadas pelos dois lados eram, ao cair da tarde, menos concorridas do que se previa, enquanto a votação, iniciada às 17h46, era acompanhada por telões.

Em Brasília, adotou-se um dispositivo de segurança para receber 300.000 pessoas, separando partidários e adversários do impeachment com uma cerca de painéis metálicos de um quilômetro estendida ao longo da Esplanada dos Ministérios.

Mas segundo cifras da Polícia Militar do Distrito Federal, havia 25 mil manifestantes - sete mil a favor de Dilma e dezoito mil pró-impeachment.

Os opositores, enrolados em bandeiras do Brasil e vestindo roupas verde e amarelas, se posicionaram do lado direito da cerca, de frente para o Congresso, e os apoiadores de Dilma, vestidos de vermelho, do esquerdo.

Em São Paulo, uma multidão reuniu-se em frente ao sindicato patronal FIESP, ponto de encontro tradicional dos protestos antigovernamentais das últimas semanas.

"Vim porque precisamos unir forças para tirar este governo. Já estive em todas as manifestações e estou certa de que a votação será positiva e haverá impeachment", disse à AFP a professora aposentada Ana Valeria, de 62 anos. Ela não quis dizer seu sobrenome.

No Rio de Janeiro, a praia de Copacabana foi ocupada pela manhã por partidários de Dilma e à tarde, por seus adversários.

Até o início da noite, nenhuma estimativa do número de participantes tinha sido divulgada pelos organizadores.

Segundo o jornal Folha de S.Paulo, manifestações foram realizadas em cerca de setenta cidades brasileiras, que mobilizaram antes do início da votação 21 mil partidários do governo e 62 mil opositores.

Dilma mantém rotinaA presidente tentou manter sua rotina e, pela manhã, deu uma volta de bicicleta nos arredores do Palácio do Alvorada, embora tenha reduzido o passeio dos habituais 50 minutos para apenas 15, segundo informações da Agência Brasil.

Em um momento, ela passou em frente ao Palácio do Jaburu, residência de Temer, que na véspera recebeu uma centena de políticos para tentar costurar parceiras na Câmara e preparar um futuro governo.

No começo da semana, em um áudio divulgado involuntariamente, segundo afirmou, Temer convocou a formação de um "governo de salvação nacional" e a fazer "sacrifícios" para tirar o país de uma recessão que entra no segundo ano.

Dilma também assegurou que, se sobreviver ao impeachment, proporia um "pacto" a todas as forças políticas para que o Brasil possa sair do atoleiro.

Costa, diretor do Congresso em Foco, considera "bastante improvável" que a Câmara rejeite o impeachment, mas tampouco vê que qualquer alternativa aproxime o fim da crise.

Se a Casa o rechaçar, "Cunha já anunciou que iniciará outro processo" contra Dilma e, se o aceitar, a batalha será travada no Senado. "Em todas as hipóteses, quem perder continuará protestando nas ruas", afirmou.

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