Sobreviventes de terremoto no Equador buscam familiares desaparecidos

Manta, Equador, 18 Abr 2016 (AFP) - Os sobreviventes do potente terremoto que deixou 272 mortos no Equador buscavam desesperadamente, no domingo, seus familiares desaparecidos sob os escombros, antes de passar sua segunda noite ao relento com medo de réplicas.

"Meu marido está ali", disse Verónica Paladines, que, apesar de pequena, escava com as mãos desprotegidas entre blocos de cimento, enormes pedaços de concreto e azulejos partidos, que lança com raiva para pilhas de escombros do que era o hotel onde trabalhava Javier Sangucho, seu marido de 25 anos.

"Fazia (trabalhos de) pintura, estava descansando aqui embaixo quando tudo aconteceu", relata à AFP a mulher de 24 anos, antes de desabar em lágrimas ao falar sobre seu marido e seus dois filhos, de 7 e 2 anos.

Uma dezena de homens, amigos e parentes ajudam Paladines desde a tarde de sábado, depois que a terra começou a tremer em Manta, popular balneário e porto pesqueiro da costa do Pacífico, na província de Manabí, uma das mais afetadas pelo tremor de 7,8 graus de magnitude, que também foi sentido em Colômbia e Peru.

Chega um bombeiro munido de uma britadeira e golpeia a estrutura despedaçada de concreto do primeiro andar que, ao desabar, isolou o marido de Verônica.

Encorajada pela ajuda, ela redobra os esforços, entre lágrimas.

Vários outros hotéis e hospedagens da avenida 105, principal via do centro da cidade, também desabaram.

"Ontem resgatamos três crianças de um hotel", disse à AFP o capitão dos bombeiros Javier Carpo, que comanda cerca de trinta homens e mulheres em uma tarefa titânica.

Gente presaEm todas as partes são vistos imóveis destruídos, casas em ruínas. No final da rua, o colégio Leonie Aviat não é mais do que um amontoado de escombros, cadeiras e salas com estruturas de metal retorcidas.

Alguns caminhões e retroescavadeiras chegaram nas últimas horas de domingo para ajudar na retirada dos escombros.

"Em toda a cidade há muitas pessoas presas, mas não sabemos quantas", disse o capitão Carpo antes de voltar às buscas entre as ruínas, por onde rondam gatos famintos.

Um pouco mais adiante, no bairro Tarqui, onde o cheiro da morte paira pelas ruas, Manuel Nailon, de 49 anos, preparava-se para passar a noite no depósito de um vizinho, perto do que era sua casa de tijolos.

No primeiro andar, exposto, de sua casa, permanece erguida parte da parede do banheiro, com as escovas e pasta de dente em seu devido lugar.

"Ajudamos uns aos outros", disse, apontando para o amontoado de escombros nos becos, em que podem ser identificados fotos de família e alguns brinquedos.

No caminho entre Manta e Portoviejo, a cerca de 40km, outra cidade duramente afetada pelo terremoto, filas enormes de carros se formam nos postos de gasolina. Ainda há combustível, mas não muito.

"Não há água ou luz e, se chover como na noite passada, tudo ficará molhado", disse Karina Bone Valiviese, enquanto tenta tapar, com plástico, seus poucos pertences.

Esta mulher de 39 anos, mãe de quatro filhos e avó de dois, refugiou-se com sua família no pátio da igreja Pio Noveno em Portoviejo.

Dezenas de famílias estão ali, com colchões, sofás e geladeiras que recuperaram nos escombros.

"A terra se abriu e a água começou a subir", explica Karina, cuja casa foi devastada pela água.

Assim como Karina e muitos outros, Yesica Geomara se queixa porque "ninguém veio" ajudá-los ou vê-los.

Com a frustração estampada em seu rosto, esta mulher de 36 anos se prepara para passar várias noites à intempérie.

"Nossa casa tinha seis meses, mas ficaram as máquinas, minhas ferramentas. Temo por roubos", disse seu marido, Nelson Moreira, um torneiro mecânico de 46 anos.

Difícil reconstruçãoA reconstrução dos locais afetados pelo terremoto de sábado será muito longa e cara, afirmou nesta segunda-feira o presidente Rafael Correa.

"Será preciso reconstruir Pedernales, o centro de Portoviejo, o bairro de Tarqui, em Manta, Canoa, Jama... Isto levará meses, anos e custará centenas, provavelmente bilhões de dólares", afirmou durante visita a Pedernales, o epicentro do terremoto, severamente castigado pelo sismo.

Também nesta segunda-feira, o vice-presidente, Jorge Glas, afirmou à AFP que "há recursos contingenciados que há foram ativados: 300 milhões de dólares para emergências, 150 [milhões de dólares] para reconstrução porque depois disto vem a reconstrução".

O país contará, ainda, com linhas de financiamento do Banco Mundial e do Banco Interamericano de Desenvolvimento de 600 milhões de dólares para enfrentar esta catástrofe.

Correa afirmou que muitos edifícios desabaram "por má construção" e pediu que o país tire "lições para o futuro" dessa dolorosa experiência.

"Muitos edifícios desabaram por má construção. Ninguém quer fugir das responsabilidades, mas essa responsabilidade é principalmente dos governos locais", disse durante a visita a Pedernales.

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