Agente que limpou Chernobyl lembra a catástrofe 30 anos depois

Vychgorod, Ukraine, 26 Abr 2016 (AFP) - Igor Magala ainda se lembra do gosto metálico que sentiu na boca quando se aproximou da usina nuclear de Chernobyl na manhã do dia 26 de abril de 1986. Naquele momento, no entanto, ele não se deu conta da magnitude da catástrofe que enfrentaria.

Horas antes, Magala, sub-diretor de construções da usina, tinha recebido uma ligação, na qual lhe disseram que tinha acabado de ocorrer um acidente em um dos reatores.

"Não havia informação, tudo era confidencial. Eu pensei que ficaria lá uma semana, e no fim das contas fiquei por um ano", contou à AFP.

Ao chegar na usina, percebeu que havia uma grande quantidade de soldados nas instalações. Ele ainda não sabia que o reator número quatro da usina que havia ajudado a construir e onde trabalhava desde 1980 tinha explodido à 01h23 da madrugada.

O acidente, causado por uma falha humana e por um defeito no projeto da usina soviética, provocou a maior catástrofe nuclear civil da história. O balanço de vítimas continua sendo motivo de controvérsia, mas alguns estimam que milhares, e inclusive dezenas de milhares de pessoas morreram.

"O quadro era deprimente", afirmou o construtor, de 78 anos, que hoje mora na cidade de Vychgorod, localizada na região de Kiev (centro-norte da Ucrânia) e cerca de 100 km ao sul de Chernobyl.

Na primeira noite após o acidente, ele notou um estranho clarão, que se elevou no céu por cima do reator.

"Era um lampejo vermelho, visível principalmente durante a noite. Essa coluna continuo brilhando durante vários dias", lembrou.

O combustível nuclear ardeu por mais de dez dias, liberando no ar elementos radioativos que tinham intensidade equivalente a 200 bombas de Hiroshima.

A ameaça de outra explosãoMagala fez parte dos "liquidadores", como ficou conhecida a equipe de 600.000 soviéticos, entre soldados, policiais, bombeiros e operários que durante quatro anos se encarregaram de minimizar as consequências do acidente.

Eram principalmente trabalhadores ucranianos, russos e bielorrussos, que participaram, com roupas de proteção inadequadas, da construção do sarcófago projetado para conter parte da radiação do reator acidentado.

"Não tínhamos nenhuma proteção. Tudo isso veio depois", conta. "Tínhamos o senso do dever", disse, para explicar a coragem daqueles homens.

Para Magala, os bombeiros se encarregaram da pior parte do trabalho, assim como os que subiram no teto do reator para varrer com pás os blocos de grafite radioativo que foram espalhados com a explosão.

No chão, os blocos eram apanhados por tratores controlados por rádio.

"As máquinas quebravam, mas os homens resistiam", lembrou.

"Chamávamos aqueles homens de guerrilheiros. Eles recebiam um capacete e um avental de chumbo", disse Magala.

Até hoje, o agente mostra grande respeito pelos que assumiram os maiores riscos para limpar a zona.

"Cinco anos depois, os soldados começaram a cair como moscas", lamentou.

"Cada um cumpriu seu destino. Muitos já se foram. Muitos morreram", disse.

Magala, por sua vez, teve sorte. Nunca teve nenhum problema de saúde vinculado à radiação, apesar de que, um mês depois do acidente entrou com outros dez voluntários para verificar se a água e o magma formado pelo combustível radioativo tinham penetrado na piscina do reator acidentado.

"Havia o risco de uma explosão termonuclear caso a água entrasse na piscina, o que transformaria Pripyat (a pequena localidade a três quilômetros da usina) em uma grande cratera e provocaria uma retirada urgente e em massa de toda a região de Kiev", explicou.

Depois de trabalhar durante quatro dias na equipe, constatou com alívio que seus piores medos não procediam, e tal retirada não seria necessária.

No final de 1986, após a conclusão da construção do sarcófago gigante sobre o reator, Magala voltou a Kiev e continuou trabalhando no setor de energia.

Nunca mais voltou a trabalhar em Chernobyl.

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