Combates em cidade síria de Aleppo complicam negociações diplomáticas

Alepo, Síria, 4 Mai 2016 (AFP) - Intensos combates em Aleppo, no norte da Síria, e bombardeios da aviação do regime contra regiões rebeldes a leste da capital, ilustravam nesta quarta-feira a dificuldade das grandes potências de promover um novo cessar-fogo.

Desde a retomada das hostilidades, em 22 de abril, na segunda maior cidade do país, 284 pessoas, incluindo 57 crianças e 38 mulheres, morreram na violência, segundo o Observatório Sírio dos Direitos Humanos (OSDH).

A cidade está dividida desde 2012 e a nova escalada de violência fez 156 vítimas do lado rebelde, quase que exclusivamente em ataques do regime, e 128 vítimas em bombardeios rebeldes contra setores controlados pelo governo.

Nesta quarta, três civis foram mortos quando um foguete caiu em um bairro controlado pelo governo, segundo a agência de notícias oficial SANA.

Os confrontos diretos foram retomados na terça-feira, quando uma coalizão de grupos rebeldes, "Fatah Halab" ("A conquista de Aleppo") lançou uma ofensiva nos bairros controlados pelo regime.

São "os combates mais violentos em Aleppo em mais de um ano", indicou o diretor do OSDH, Rami Abdel Rahman.

Os confrontos continuaram durante a noite com tiroteios e ataques aéreos, de acordo com um correspondente da AFP.

"Eu não acredito que os ataques aéreos vão parar, porque a decisão não está nas mãos do presidente Bashar al-Assad, mas nas de seu aliado russo", declarou Mahmud Sendeh, um militante rebelde de 26 anos.

No dia anterior, a Rússia afirmou que esperava um cessar-fogo "nas próximas horas" em Aleppo.

"Russos e americanos (...) tentaram introduzir um regime de silêncio (cessação das hostilidades) em e entorno de Aleppo", afirmou nesta quarta a repórteres o porta-voz militar russo, Igor Konashenkov, em Hmeimim, uma base aérea onde as forças russas estão estacionadas na província de Latakia (oeste).

Mas "o regime de silêncio foi impedido pela Frente Al-Nosra", indicou, referindo-se ao ramo sírio da Al-Qaeda na Síria.

Rússia e Damasco justificaram assim a ofensiva lançada em Aleppo em 22 de abril, que acabou com a trégua estabelecida entre o regime e os rebeldes, mas que excluía grupos jihadistas, tais como o Estado Islâmico e a Frente Al-Nosra.

"O problema é que todo mundo tem uma visão diferente do cessar-fogo. O regime e os russos consideram que a partir do momento em que há membros da Al-Nosra, mesmo que apebas 2%, todo o resto é Al-Nosra também. Esta não é a nossa visão", declarou uma fonte diplomática europeia.

Mais ao sul, pelo menos 22 ataques aéreos do regime atingiram Ghouta Oriental, reduto rebelde a leste de Damasco, e os combates recomeçaram entre as forças do regime e grupos rebeldes após o fim de uma trégua durante a noite.

- Depende dos russos - Ainda não há um balanço do número de vítimas.

Moscou e Washington alcançaram na semana passada um acordo para o "congelamento" das hostilidades durante 24 horas prorrogado duas vezes em Ghouta Oriental e na província de Latakia, que continua sem registro de novos confrontos.

Na frente diplomática, o chefe da diplomacia alemã, Frank-Walter Steinmeier, vai se reunir em Berlim com o enviado especial da ONU para a Síria, Staffan de Mistura, bem como com o coordenador da oposição síria, Riad Hijab, e o ministro francês das Relações Exteriores, Jean-Marc Ayrault.

"Procuramos voltar a envolver todas as partes em conflito num acordo", explicou uma fonte diplomática europeia sobre estes encontros, observando que em Aleppo "as hostilidades recomeçaram apenas por iniciativa do regime.

Mas "um cessar-fogo, ele realmente depende dos russos", admitiu a fonte.

A reunião em Berlim vai preceder uma reunião do Conselho de Segurança da ONU em Nova York, solicitada por Paris e Londres, para tentar restaurar o cessar-fogo em Aleppo.

Além disso, Ayrault convidou segunda-feira em Paris os seus colegas saudita, catari, árabe e turco para pressionar por um cessar-fogo.

O chefe da diplomacia americana, John Kerry, ameaçou na terça-feira o presidente sírio se a trégua discutida entre Washington e Moscou não for respeitada.

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