Como Donald Trump dominou os republicanos

Washington, 4 Mai 2016 (AFP) - O bilionário populista Donald Trump capitalizou sua experiência midiática e a onda que varre os Estados Unidos contra as elites políticas para se tornar o primeiro "novato" a conquistar a indicação do partido republicano à eleição presidencial desde o general Dwight Eisenhower, em 1952.

Em 2010, o partido republicano se viu dominado pelo insurgente movimento Tea Party, cujo objetivo era expulsar a classe política tradicional, republicana e democrata, para eleger recém-chegados.

O partido acabou por cooptar esta mensagem de rejeição, mas Donald Trump conseguiu, como nenhum outro candidato, recuperar e ampliar este voto de protesto.

"A direita está com raiva do establishment, que não fez o que prometeu, ou seja, reduzir o papel do Estado, barrar a reforma da saúde, impedir o casamento gay e outros avanços sociais", explica James Thurber, diretor do centro de estudos presidenciais e parlamentares na American University.

"Seus eleitores vêm desta direita em cólera. Eles se sentem abandonados, acreditam que o Estado e o patronato são os seus inimigos", disse à AFP.

A máquina republicana contribuiu diretamente para o crescimento de Donald Trump durante o primeiro mandato de Barack Obama. O empresário liderou os "birthers", que questionavam o nascimento americano de Barack Obama a fim de contestar sua presidência.

"O partido republicano deixou que agisse porque isso os ajudou a mobilizar a base. Mas também permitiu que Donald Trump subisse, e isso é algo que muitas pessoas do partido se arrependem", ressalta John Hudak, pesquisador do Brookings Institution, em Washington.

"O partido republicano apostou nos benefícios em curto prazo, sem levar em conta os efeitos a longo prazo", afirmou à AFP.

Iconoclasta ideológicoA base de apoio de Donald Trump é constituída pelos americanos brancos, sem diploma e que nutrem um sentimento de abandono. Muitos conservadores permanecem visceralmente opostos a ele (especialmente os diplomados), mas o empresário acabou por congregar mais da metade dos eleitores republicanos.

Sua popularidade transcende categorias ideológicas. É ao mesmo tempo conservador e moderado. Amante do capitalismo, denuncia ao mesmo comércio o livre comércio, e enquanto adota uma linha dura sobre o direito de possuir armas de fogo, pretende garantir aos americanos uma proteção social.

"Eles não esperam dele uma coerência filosófica conservadora, a motivação que os une é a raiva", afirma James Thurber.

A xenofobia latente dentro da direita americana também desempenha um papel no seu sucesso, de acordo com John Hudak. Os comícios de Donald Trump foram palco de violentos confrontos entre seus partidários e manifestantes negros ou hispânicos, com o candidato aprovando tacitamente esses confrontos.

Estrela das mídiasOutra vitória de Donald Trump se dá pelo domínio absoluto sobre as mídias. Quase todos os dias, concede uma entrevista na televisão. Graças a ele, os debates das primárias foram os programas mais vistos na história da televisão a cabo nos Estados Unidos, com exceção dos esportes.

Ao misturar espetáculo e polêmicas, calibrou sua campanha para a mídia, insultando um herói de guerra, como John McCain, ou propondo fechar as fronteiras para os muçulmanos.

Sua promessa de construir um muro na fronteira com o México se tornou um slogan simplista e formatado para a televisão.

Ele é o único candidato cujos comícios eleitorais foram transmitidos do começo ao fim. Esta cobertura midiática gratuita permitiu-lhe poupar dezenas de milhões de dólares em gastos com publicidade.

"Seu status de celebridade foi o seu maior trunfo, e ele deve a esse status às 15 temporadas da série 'The Apprentice'", explica seu ex-assessor Roger Stone, que o conhece muito bem, ao repórter Glenn Thrush em seu podcast Off Message.

"Para os eleitores, não há diferença entre informação e tele-realidade. Tudo é televisão".

"Em 'The Apprentice', ele se senta em uma grande poltrona, perfeitamente iluminado, maquiado e bem vestido. É duro, toma decisões e tem uma conduta coerente com a de um presidente", indica Roger Stone.

Em dez meses de campanha, Donald Trump passou de palhaço a candidato presidencial.

No entanto, quando lançou sua campanha, em junho de 2015, dois terços dos republicanos juravam que nunca votariam nele.

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