A estrela vermelha do PT de Lula e Dilma enfraquece no Brasil

Rio de Janeiro, 13 Mai 2016 (AFP) - A estrela vermelha, símbolo do Partido dos Trabalhadores (PT) do ex-presidente Lula e de Dilma Rousseff, está enfraquecida, associada à corrupção. Mas os especialistas afirmam que ainda não se apagou por completo.

Treze anos depois de sua chegada ao poder - o maior ciclo de um partido no governo brasileiro desde a ditadura (1964-1985) - o "partido da ética" viu sua trajetória ser brutalmente interrompida pelo Senado, que na quinta-feira iniciou o julgamento político de Dilma, que foi suspensa do cargo.

Acusada de maquiar contas públicas, mas não de corrupção, a ex-guerrilheira de 68 anos foi afastada do poder por um período máximo de seis meses, até o final do julgamento no Senado, provavelmente em setembro. Suas chances de voltar ao governo são quase nulas.

Seu vice-presidente Michel Temer, de 75 anos, assumiu o seu lugar e já nomeou um gabinete de transição que poderia permanecer até as próximas eleições presidenciais em 2018, quando o PT irá apresentar um novo candidato.

"O PT tem a melhor rede partidária, com representantes em 98% das cidades brasileiras. Essa grande força de organização não se acaba da noite para o dia", explica à AFP Adriano Codato, professor de ciência política na Universidade do Paraná.

Para o professor, o PT vai sofrer "uma catástrofe" nas eleições municipais de outubro, uma vez que a sua "marca" está agora associada à corrupção.

'Racismo de classe'O PT tem sido vítima de seus erros, como não ter resolvido seus problemas de corrupção, mas também de seus êxitos, como estabelecer cotas para negros nas universidades, o que alimentou um 'racismo de classe' contra o governo", continua Codato.

A classe média, que apoiava o PT porque denunciava a corrupção, abandonou o partido ao ver que sua política "beneficiava os mais pobres e os mais ricos".

"Como professor, pago 27,5% de impostos sobre os meus rendimentos. Se fosse pensionista, se tivesse 15 apartamentos alugados, pagaria apenas 8%", exemplifica.

As manifestações de junho de 2013 em relação ao custo da Copa do Mundo e as exigências pro melhores serviços públicos já soavam o alarme.

Tarso Genro, de 69 anos, ex-ministro dos governos Lula e homem forte do partido no estado do Rio Grande do Sul foi um dos poucos membros do PT a fazer uma auto-crítica e pedir uma "refundação".

"O PT perdeu a chance de se refundar em seu último congresso (junho de 2015), onde prevaleceu a opção política de se manter no poder a qualquer preço, na esperança de que o PMDB (de Michel Temer) voltasse a ser nosso aliado estratégico", disse Genro, em um e-mail à AFP.

O ex-ministro da Justiça milita por um retorno da formação às suas bases ideológicas, com uma "análise dos seus triunfos, que foram numerosos, bem como dos erros e limites, para enfrentar esta nova fase da globalização liberal dominada e dirigida pelo capital financeiro, que não teme em relativizar a democracia para proteger seu processo de acumulação", acrescentou.

ReorganizarE Lula, o grande ícone do sucesso da esquerda latino-americana, seria capaz de salvar o partido?

Com 20% das intenções de voto, o ex-presidente (2003-2010) lidera as pesquisas para as eleições presidenciais de 2018 e ainda é o terror da direita.

Genro, um advogado, ignora "se Lula quer ser candidato ou sem tem as condições legais", já que a Procuradoria pediu permissão ao Supremo Tribunal Federal para investigá-lo por suposta participação no escândalo da Petrobras.

Ele acredita que a "perseguição" sofrida pelo ex-presidente visava "retirá-lo da corrida presidencial" para 2018.

Neste momento, é necessário que o PT "reorganize a esquerda unificada para apresentar uma alternativa às reformas neoliberais que Temer quer implementar", ressalta.

Apoiado em seu projeto político que permitiu retirar 40 milhões de brasileiros da pobreza, "o PT pode ser reconstruído, pois possui uma boa estrutura, mas terá de ser renovado", opina Fabio Malini, da Universidade Federal do Paraná.

"O principal legado do PT foi uma melhor distribuição de renda, mas terá que retomar um programa que abandonou há tempos", acrescenta.

O PT decepcionou seu eleitorado de esquerda ao seguir a tradição de alianças oportunistas com partidos de todos os espectros. Um descontentamento que tem aumentou com a renúncia a várias bandeiras antigas do partido, como a reforma agrária, do sistema eleitoral ou da saúde pública.

Lula liderou o crescimento sócio-econômico brasileiro entre 2003 e 2010 e levou o gigante emergente ao primeiro plano da cena internacional.

As esperanças, no entanto, foram desvanecendo com o governo de Dilma, que acabou sendo engolido pela recessão econômica e o escândalo de corrupção na Petrobras.

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