Guinada radical na diplomacia brasileira pós-Dilma Rousseff

Brasília, 18 Mai 2016 (AFP) - A mudança na política externa brasileira com o presidente interino Michel Temer será drástica, como evidenciam as reações duras do Brasil diante dos governos de esquerda que classificaram de "golpe" o afastamento de Dilma Rousseff.

O novo ministro das Relações Exteriores, José Serra, assumirá formalmente o ministério nesta quarta-feira e mudará a atenção da diplomacia aos Estados Unidos e ao mundo desenvolvido, com forte foco na economia, em detrimento da política orientada à região que marcou o ciclo de Lula e Dilma, afirmaram analistas consultados pela AFP.

Serra, senador e ex-candidato presidencial (PSDB) derrotado por ambos, foi nomeado quase uma semana depois que Dilma foi afastada de seu cargo para enfrentar um julgamento de impeachment por manipulação das contas públicas e Temer assumiu o poder, a princípio pelos seis meses que o processo pode levar.

Temer completará o mandato em 2018 se o Senado considerar Dilma culpada e a destituir definitivamente do cargo.

A opção por um político, e não por um diplomata de carreira, dá ao ministério das Relações Exteriores a força e o protagonismo que teve poucas vezes nos cinco anos do governo de Dilma Rousseff.

Primeiros dardosO primeiro teste veio com a reação dos governos de Venezuela, Cuba, Bolívia, Equador e Nicarágua, que consideraram o processo de impeachment contra Dilma um "golpe de Estado". Serra não hesitou em desqualificar suas "falsidades". Fez o mesmo ao repudiar as declarações do secretário-geral da Unasul, Ernesto Samper.

"Quanto maiores as falsidades, mais forte será o tom", advertiu Serra no sábado à rede Globo.

El Salvador, por exemplo, chegou inclusive a afirmar que não reconheceria o novo governo, mas posteriormente voltou atrás em sua decisão quando Serra lembrou os acordos comerciais que estavam em risco.

A OEA anunciou que consultará sobre a legalidade do impeachment a Corte Interamericana de Direitos Humanos, segundo seu secretário-geral, Luis Almagro. Serra não reagiu, mas em seu discurso sempre insistiu que o impeachment cumpriu com as normas legais.

O Itamaraty também trabalha para explicar a legitimidade do processo de impeachment no exterior, depois que no fim do governo Dilma foram enviados documentos a delegações diplomáticas denunciando um golpe.

A China, principal sócia comercial do Brasil, e a Rússia, integrante dos BRICS, nunca objetaram o novo governo, disse à AFP uma fonte próxima ao gabinete do ministro, que pediu para não ser identificada.

Mudança de prioridadesA fonte do gabinete disse ainda que Serrá está se cercando de diplomatas com experiência e que a transferência do cargo foi feita sem traumas e dentro de uma visão de Estado. Entre seus primeiros atos como ministro, ratificou, por exemplo, Sérgio Danese como secretário-geral das Relações Exteriores, que segundo meios de comunicação é seu amigo pessoal.

A guinada radical será dada no protagonismo que as Relações Exteriores terão na administração Temer, que pode inclusive aumentar o orçamento da pasta, que não estava entre as prioridades de Dilma.

Outro diplomata de carreira, que também pediu o anonimato, explicou que "a direita se instalou ao fim do governo Lula". "Depois do ministro Celso Amorim houve um processo progressivo de conservadorismo que agora celebra", criticou.

E o foco da política externa será o mundo desenvolvido, sobretudo porque Serra terá agora o controle da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex), que até então dependia do ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior.

"O Brasil deve dar uma importância maior aos países desenvolvidos, na busca de acordos, tirar o Mercosul do isolamento. Também trabalhará, como sempre, com os países em desenvolvimento, mas sem esta ênfase ideológica do PT", estimou Rubens Barbosa, ex-embaixador do Brasil em Washington.

VizinhosO Brasil não descuidará das relações com seus vizinhos, principalmente o mais importante deles, a Argentina.

Serra explicou por telefone detalhes da situação política a sua colega da Argentina, Susana Malcorra, e deve viajar nos próximos dias a Buenos Aires.

Malcorra indicou na segunda-feira ao jornal Clarín que seu governo acompanhou muito de perto, mas com cautela, o processo contra Dilma Rousseff.

Com o bloco dos "bolivarianos", como são chamados os governos de esquerda com o da Venezuela, a tensão começou a baixar e as relações tendem a se normalizar, explicou a fonte do gabinete.

"A relação é histórica. Temos interesses nestes países e eles aqui. Em Cuba, por exemplo, a maior fábrica de cigarros é brasileira. Que interesse poderíamos ter em romper relações?!", explicou.

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