Sob estado de exceção, polícia venezuelana bloqueia marcha pró-referendo

Caracas, 18 Mai 2016 (AFP) - A polícia venezuelana, armada com escudos, coletes à prova de balas e capacetes, impediu nesta quarta-feira mil opositores de chegar à sede central do órgão eleitoral, em um protesto no qual exigiam um referendo revogatório contra o presidente Nicolás Maduro.

Em meio à multidão, algumas pessoas foram atingidas por gases lançados pelos efetivos das forças de segurança na avenida estratégica Libertador. Pequenos grupos também lançaram pedras contra os agentes, embora sem incidentes graves até o momento.

A concentração, convocada pela coalizão Mesa de Unidade Democrática (MUD) em vinte cidades, é o primeiro protesto sob o estado de exceção, declarado na sexta-feira pelo presidente para enfrentar a severa crise econômica e bloquear as tentativas de tirá-lo do poder.

"Revogatório, revogatório! Fora Maduro!", gritavam os manifestantes, que seguravam cartazes contra o governo e bandeiras da Venezuela. Alguns tentavam burlar o cordão policial por caminhos adjacentes para tentar chegar à sede do Conselho Nacional Eleitoral (CNE).

Contingentes de policiais estavam em diferentes pontos da avenida e da Praça Venezuela para impedir que passassem, enquanto em outras cidades do país, também com uma forte mobilização de segurança, grupos de manifestantes conseguiram marchar.

"Colocaram mil impedimentos, não querem revisar as assinaturas e agora com estado de exceção nos reprimem", disse à AFP Mary Olivares, uma universitária de 28 anos, na avenida Libertador.

Os opositores exigem que o CNE, acusado por eles de ser um aliado do governo, acelere a revisão de um mínimo de 200.000 assinaturas - exigidas por lei - das 1,8 milhão que entregaram no dia 2 de maio como requisito para ativar o referendo.

O líder opositor Henrique Capriles e o presidente do Parlamento - de maioria opositora -, Henry Ramos Allup, lideravam a concentração em Caracas, mas diante do cordão de segurança precisaram se retirar em meio a empurrões.

"O referendo pode ser feito neste ano e vocês sabem disso. Vamos evitar uma explosão social e um golpe de Estado", afirmou Capriles, principal promotor do referendo.

Por sua vez, Ramos Allup disse esperar "uma solução pacífica" à crise política. "Não queremos sangue ou um golpe de Estado", disse.

Um dia similar foi realizado há uma semana, mas militares e policiais impediram que os manifestantes chegassem ao escritório do CNE, incluindo sua sede central em Caracas, gerando pequenos confrontos.

Para esta quarta-feira, 14 estações do metrô de Caracas permaneceram fechadas, tornando difícil para muitos cidadãos se deslocar.

Sobe a temperatura socialA oposição quer realizar o referendo este ano, já que, se ele for realizado depois de 10 de janeiro de 2017 - quando serão completados quatro anos do atual mandato - e Maduro perder, os dois anos restantes ficariam a cargo do vice-presidente, designado pelo presidente. Se a consulta for feita antes, são convocadas eleições.

No entanto, Maduro disse que o referendo não tem "viabilidade" porque houve uma tentativa de "fraude nas assinaturas apresentadas", e denunciou que "há planos para converter as marchas em Caracas em eventos de insurreição e violentos, razão pela qual as autoridades são obrigadas a garantir a paz".

Reagindo a este impasse, o secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), Luis Almagro, acusou nesta quarta-feira o presidente venezuelano de ser um "traidor" e alertou que ele se transformará em um "ditadorzinho" se impedir o referendo.

"Negar a consulta ao povo, negar a ele a possibilidade de decidir, te transforma em mais um ditadorzinho, como os tantos que o continente teve", escreveu Almagro em uma severa carta aberta.

"Presidente, você trai seu povo e sua suposta ideologia com suas diatribes sem conteúdo, é traidor da ética da política com suas mentiras e trai o princípio mais sagrado da política, que é se submeter ao escrutínio de seu povo", acrescentou Almagro.

Enquanto a tensão política cresce, nas ruas o mal-estar social também aumenta, diante da dramática escassez de alimentos básicos e remédios essenciais, e da inflação mais alta do mundo (180,9% em 2015 e projetada em 700% para 2016).

"As pessoas estão cansadas. A situação está muito ruim, isso a qualquer momento arrebenta", declarou à AFP Lilimar Carrillo, uma enfermeira de 39 anos, que fazia fila para comprar comida na cidade de Guarenas, a 45 km de Caracas, onde na terça-feira foi registrado um protesto devido à escassez de alimentos.

Segundo uma pesquisa da empresa Datanálisis, 70% dos venezuelanos apoiam uma mudança do governo.

Rejeitado na terça-feira pelo Congresso de maioria opositora, o estado de exceção contém medidas para enfrentar a profunda crise econômica e autoriza "operações especiais de segurança" contra o que Maduro denuncia como uma ameaça de intervenção estrangeira, instigada pela oposição e pelos Estados Unidos.

Maduro sustenta que entre as estratégias para precipitar uma intervenção estão propagar a ideia de que a Venezuela enfrenta uma "crise humanitária", junto com atos de violência.

O CNE disse que no dia 2 de junho finalizará a auditoria das assinaturas. Se forem aceitas, 200.000 pessoas precisarão revalidar sua assinatura com a impressão digital. Em uma segunda etapa, a MUD deve reunir quatro milhões de assinaturas em três dias.

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