Governo da Venezuela mostra poderio militar em meio a tentativas de diálogo

Caracas, 20 Mai 2016 (AFP) - Mais de meio milhão de militares e milicianos iniciarão nesta sexta-feira dois dias de exercícios de defesa em uma Venezuela sob estado de exceção e em meio a esforços internacionais para abrir um diálogo entre o governo de Nicolás Maduro e a oposição.

Maduro ordenou à Força Armada Nacional Bolivariana (FANB) que mobilize a artilharia para se preparar para enfrentar, segundo ele, eventuais agressões externas, em meio a um aumento dos conflitos sociais e das tentativas da oposição de tirá-lo do poder através de um referendo revogatório.

Aviões Sukhoi 30 Mk2 e outras aeronaves faziam voos de reconhecimento em várias regiões do país, inclusive as zonas fronteiriças, segundo imagens da televisão, que mostraram também o deslocamento de tanques de guerra e tropas.

"Peço ao povo que se some para fazer da Venezuela um território inexpugnável. Nunca antes tínhamos feito um exercício desta natureza e deste alcance", declarou o ministro da Defesa, general Vladimir Padrino, da base aérea de Barcelona, no estado de Anzoátegui (norte).

Há um ano, uns cem mil efetivos fizeram manobras depois que o presidente americano, Barack Obama, declarou a Venezuela como uma "ameaça" à segurança dos Estados Unidos, ao emitir sanções contra vários funcionários, mas desta vez Maduro decidiu que aos mais de 160.0000 membros das FANB se somem centenas de milicianos e reservistas.

Agora, Maduro decidiu que, aos efetivos militares, se somem centenas de milhares de reservistas e milicianos, algo "sem precedentes", segundo o ministro da Defesa, general Vladimir Padrino López.

"Este exercício não é para provocar nenhum alarme no país", afirmou Padrino, que o justificou afirmando que a Venezuela "está ameaçada" por fatores internos e externos que pretendem "quebrantar a revolução".

"Fazer estas mobilizações com a desculpa das ameaças externas é uma boa maneira de demonstrar que está" a postos e criar "temor nas pessoas", declarou à AFP o cientista político Benigno Alarcón.

O presidente chavista sustenta que os Estados Unidos estão planejando uma intervenção na Venezuela, a pedido da "direita fascista venezuelana" após "o golpe de Estado do Brasil" contra Dilma Rousseff.

"Este referendo é para gerar as condições para esquentar as ruas e justificar um golpe de Estado ou uma intervenção estrangeira, para isso estão tentando ativá-lo, com muito pouco apoio", afirmou Maduro na noite de quinta-feira, em um ato de seu partido socialista.

O líder opositor Henrique Capriles, principal promotor do referendo, afirmou em entrevista à BBC que um levante militar "está no ar", pois a FANB está "dividida" entre uma "cúpula militar corrupta" e o restante de militares, afetados pela penúria econômica.

Depois de ter declarado há uma semana um estado de exceção, Maduro afirmou que não hesitará em decretar a "comoção interna" - que implicaria em restrições a liberdades civis - se ocorrerem atos "golpistas violentos".

Difícil caminho ao diálogoÀ tensão política se soma o aumento do mal-estar social, diante da dramática escassez de alimentos básicos e remédios, e do elevado custo de vida, já que o país tem a inflação mais alta do mundo (180,9% em 2015 e projetada em 700% para 2016).

Vizinhos de um setor de Valencia, capital do estado de Carabobo (centro), reportaram saques a lojas na noite de quinta-feira. Nas últimas semanas, aumentaram os distúrbios em supermercados, devido à falta de alimentos.

Diante do agravamento da crise política e econômica na Venezuela, uma mediação internacional, às instâncias da Unasul, tentará abrir um diálogo.

"Será um caminho longo, duro e difícil", disse nesta quinta-feira o ex-presidente do governo espanhol José Luis Rodríguez Zapatero, que chefiou a missão em Caracas.

De entrada, as posturas antagônicas estão firmes. Maduro disse esperar que a comissão de ex-presidentes faça com que a oposição "ceda" em sua "atitude golpista", enquanto esta advertiu que um processo sério deve destravar a via do referendo revogatório para a "mudança política".

Chile, Argentina e Uruguay formularam nesta sexta-feira um chamado "urgente" ao diálogo na Venezuela, segundo uma declaração conjunta das três chancelarias.

"Não sou veado e estou sendo caçado!"A oposição reivindica ao Conselho Nacional Eleitoral (CNE), ao qual acusa de servir ao governo, acelerar a revisão de um mínimo de 200.000 assinaturas - exigidas por lei - do total de 1,8 milhão entregues em 2 de maio para ativar o referendo.

"Não sou veado e estou sendo caçado, tenho que me cuidar", disse Maduro na noite de quinta-feira, em alusão ao referendo revogatório que a opositora Mesa da Unidade Democrática (MUD) quer celebrar em 2016 para que se convoquem eleições.

Se for realizado depois de 10 de janeiro, quando se completam quatro anos do atual mandato, e Maduro perder, os dois anos restantes seriam concluídos pelo vice-presidente, nomeado pelo chefe de Estado.

Maduro afirmou que se o CNE concluir que a oposição cumpriu com os requisitos para ativar o referendo será feito, caso contrário, "esta opção não se dará e não vão tentar impô-la com violência".

Segundo o instituto de pesquisas Datanálisis, 70% dos venezuelanos apoiam uma mudança de governo. Para revogar o mandato de Maduro, é necessária que se obtenha mais que os 7,5 milhões de votos com os quais ele foi eleito, em abril de 2013.

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