Sul do Afeganistão comemora colheita excepcional de papoula

Naqil, Afeganistão, 21 Mai 2016 (AFP) - No sul do Afeganistão, trabalhadores rurais dos campos de papoula, matéria-prima do ópio e da heroína, comemoram com jogos e festa uma colheita excepcional, que pode trazer uma receita importante para os talibãs este ano.

No Afeganistão, a primavera é sinônimo de ofensiva dos insurgentes islâmicos, mas também de colheita da papoula. Como ocorre todo ano, milhares de pessoas foram a Naqil, na província de Uruzgan, para retirar a resina da papoula, a partir da qual se produz o ópio e a heroína.

Desta vez, a colheita parece promissora e à noite, os trabalhadores jogam o "laço": os participantes se posicionam no meio da multidão, agitando uma corda comprida, com a qual devem tocar seus adversários. A alegria toma conta do local e muitos compram sorvetes de framboesa de um vendedor.

"É o único momento do ano em que se ganha dinheiro", explica Afzal Mohammed, um agricultor que veio de Kandahar para trabalhar na colheita. "Aqui, a gente trabalha durante 15 dias e o resto do ano não tem emprego", afirma.

Segundo os moradores da região, muitos trabalhadores rurais que colhem a papoula são talibãs vindos de outras regiões do país.

"Embora todo mundo diga que sem a papoula não haveria guerra no Afeganistão, a verdade é que para nós não haveria trabalho, nem comida sem a papoula", afirma Abdul Bari Tokhi, líder tribal cuja família possui vários hectares de terra em Naqil.

A vinda de trabalhadores de todo o país para a colheita é a prova da precariedade da situação econômica no Afeganistão, onde o desemprego afeta uma em cada cinco pessoas economicamente ativas. E sobretudo, demonstra o fracasso das campanhas para erradicar o cultivo da planta, lançadas pelos países ocidentais, após a derrubada dos talibãs, em 2001.

O Afeganistão permanece como o líder mundial deste cultivo e, em 2014, ano em que a Otan deu por concluída a missão de combate no país, registrou-se a melhor colheita de papoula desde 2002.

No ano passado, a produção caiu enormemente, mas segundo o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime, foi por causa da seca e não das campanhas de erradicação. Por isto, este ano os produtores fazem tudo o possível para recuperar o que não conseguiram ganhar no ano passado.

'Estamos em guerra'Durante a colheita da planta, os talibãs costumam reduzir seus ataques, um sinal de que controlam o cultivo, um mercado que representa 3 bilhões de dólares.

"A colheita está prestes a terminar (...), pelo que esperamos um aumento dos ataques talibãs", explicou recentemente Charles Cleveland, porta-voz das tropas americanas no Afeganistão.

"Com a colheita muito boa deste ano, tememos que os talibãs reinvistam sua receita em esforços de guerra", lamentou.

Em Uruzgan, província montanhosa de difícil acesso, a papoula está em toda parte. De seu gabinete, o governador da província, Mohammed Nazir Kharoti, tem a vista dos campos verdes entre colinas que se perdem no horizonte.

"Estamos em guerra", explica, assegurando que não pode fazer nada contra o "ouro verde".

"A erradicação forçada só agrava a situação econômica. Cria um movimento de simpatia da população com os talibãs e inclusive leva as pessoas a acolhê-los em suas casas", afirma.

Naqil, no sul de Uruzgan, está repleta de agricultores, narcotraficantes, dependentes químicos e talibãs. Oficialmente, a região está sob o controle do governo, mas as autoridades são cada vez menos presentes.

Nos campos, o sistema de colheita é sempre o mesmo. À tarde, é preciso fazer com uma faca uma incisão na cápsula da planta, de onde sai uma seiva branca. À noite, a substância endurece e fica marrom e a resina resultante é retirada no dia seguinte, usando um raspador.

Alguns produtores consideram a incisão da papoula um ato quase poético. "É preciso sujeitá-la com cuidado", diz Sher Mohammed, recomendando que a incisão seja feita "com amor".

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