Como vivem os civis na cidade iraquiana de Fallujah

Bagdá, 2 Jun 2016 (AFP) - Os quase 50.000 civis bloqueados em Fallujah não têm como escapar desta cidade sob cerco das forças iraquianas, que lutam para tomá-la do grupo jihadista Estado Islâmico (EI).

O grande número de civis retarda a operação de reconquista lançada na semana passada pelas forças governamentais, segundo o primeiro-ministro Haider al-Abadi, e permite ao EI utilizá-los como escudos humanos, segundo a ONU.

Os habitantes que ficaram em Fallujah, uma cidade 50 km ao oeste de Bagdá e um dos principais redutos jihadistas, lutam por sua sobrevivência.

Água e alimentosA cidade não recebe ajuda desde setembro de 2015 e os alimentos básicos estão escassos há meses.

A população sobrevive sobretudo graças às tâmaras. É difícil encontrar farinha de trigo e ela é muito cara. As pessoas se consolam com uma espécie de pão preto e amargo. Outras produzem sua própria farinha moendo sementes de tâmaras tostadas anteriormente.

"Quando meu sobrinho cheira o pão que dou a ele, vira a cabeça e se nega a comê-lo", explica Um Imad (o nome foi trocado por motivos de segurança).

Outro habitante de Fallujah explicou à AFP que várias famílias misturam comida para animais com cereais para alimentar seus filhos.

Uma família que conseguiu chegar a um campo de deslocados situado ao sul da cidade comeu arroz pela primeira vez em dois anos.

O início do cerco disparou a inflação. O quilo de açúcar chegou a 40 dólares.

Segundo os habitantes, há meses falta água potável. Homens e meninos vão de bicicleta ao rio Eufrates para se abastecer.

EletricidadeMuitas famílias estão há meses sem energia elétrica em suas residências e precisam utilizar geradores.

Os jihadistas controlam a distribuição de combustível, que dividem, sobretudo, entre seus combatentes e as pessoas próximas ao grupo.

A população se contenta com as lâmpadas fabricadas com uma garrafa de vidro, corda e óleo. Os iraquianos as utilizaram nos anos 90, quando o país estava submetido a sanções econômicas internacionais.

SaúdeTambém faltam medicamentos básicos, que os jihadistas costumam reservar para si próprios, e não há leite para os bebês.

Uma mulher de 40 anos contactada pelo Conselho Norueguês para os Refugiados (NRC) descreveu a situação no hospital de Fallujah da seguinte maneira: "O doutor tem vínculos com o EI e se nega a ajudar o povo. Ao invés de administrar o tratamento adequado, os médicos decidem com frequência amputar uma perna ou um braço se o paciente sofre".

RiscoFallujah é alvo de bombardeios diários de artilharia das forças governamentais. Como não é possível ter acesso à cidade, não se sabe o número de vítimas civis, mas alguns habitantes afirmam que houve muitas nos últimos meses.

Os aviões da coalizão dirigida pelos Estados Unidos e pelo exército iraquiano também atacam posições e refúgios do EI, o que torna muito perigoso sair às ruas.

Os jihadistas colocaram bombas em edifícios e nos acostamentos das estradas para frear o avanço das tropas iraquianas.

Os combatentes do EI estão há meses sob pressão e se tornam paranoicos. Segundo várias testemunhas, executaram habitantes que acreditavam que espionavam para Bagdá.

Recrutamento à forçaÀ medida que perde combatentes, o grupo extremista precisa reforçar suas fileiras. Várias informações afirmam que estão recrutando crianças à força.

O Fundo da ONU para a Infância (Unicef) informou nesta quarta-feira que ao menos 20.000 crianças estão presas em Fallujah.

Segundo um habitante da cidade contactado pela AFP, o EI levou recentemente a um lugar desconhecido uma centena de homens e crianças.

(Fontes: AFP, NRC, ONU).

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